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Braudel Papers. No.
26 (2000)
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Durante os
últimos três anos a OSESP – Orquestra Sinfônica do Estado de São
Paulo, transformou-se num conjunto de padrão internacional numa das mais
surpreendentes recuperações nos anais recentes da música clássica. As
mudanças foram repentinas e dramáticas. As precárias condições de
ensaio e de apresentação, improvisadas em cinemas em decadência, escolas
e auditórios, foram trocadas pelo esplendor da nova Sala São Paulo, uma
estação ferroviária remodelada com um luxuoso décor de mármore e
acústica excelente, situado no deteriorado centro da cidade. Os salários
dos músicos foram triplicados, dando-lhes mais segurança e um trabalho de
tempo integral. O público começou a lotar a Sala São Paulo para os
concertos regulares das quintas feiras à noite e vesperais aos sábados,
atraído pela música de alta qualidade e o módico preço dos ingressos. A
Orquestra está executando este ano uma temporada de 39 programas de
concertos, planejados com longa antecedência, misturando a melhor música
brasileira com o repertório tradicional e contemporâneo, freqüentemente
com uma programação imaginativa. O Centro de Documentação Musical
criado, restaura e publica obras brasileiras importantes mas geralmente
esquecidas. A nova Academia de Música da OSESP ocupará um edifício antigo
adjacente, também restaurado, que foi usado como sede do DOPS (Departamento
de Ordem Política e Social), a temida polícia política. Lá os músicos
das primeiras estantes de cada instrumento da Orquestra treinarão uma
geração nova de músicos para os futuros quadros da Sinfônica. A
Orquestra acaba de assinar um contrato com a Columbia Artists Management
para turnês nos Estados Unidos em 2001, na Europa em 2002 e na Ásia em
2003. Numa época em que as vendas de música clássica gravada no mundo
inteiro estão caindo, com orquestras famosas, como as de Boston,
Filadélfia e Cleveland, perdendo seus contratos de gravação, a Sinfônica
de São Paulo assinou contratos com a Sony e com a BIS, o prestigioso selo
sueco, para gravar música brasileira.
O renascimento da
Sinfônica surge como um raio de luz numa vasta metrópole mal gerida de 17
milhões de habitantes, de vitalidade colossal sobrecarregada com imensos
problemas de escala, com 11.500 assassinatos, 10.000 assaltos à mão armada
nos ônibus urbanos e diversos escândalos políticos ao longo de 1999. No
livro comemorativo da abertura da Sala São Paulo em julho 1999, o diretor
musical da Orquestra, John Neschling, creditou ao governador do Estado de
São Paulo, Mário Covas, "uma generosidade raramente encontrada na
vida política" por seu apoio financeiro ao renascimento da Sinfônica.
No mesmo livro, Covas escreveu que o governo de São Paulo está dando o
mais importante e definitivo passo para a reabilitação de espaços urbanos
através da cultura". Mas ainda há pela frente uma luta para criar a
estabilidade política e a densidade institucional requerida para conseguir
os objetivos da Orquestra a longo prazo.
A temporada de
concertos 2000 foi aberta em março com uma apresentação da Missa
Solemnis de Beethoven, uma poderosa expansão da missa católica
barroca, carregada de sofrimento e serenidade, e uma das obras mais
difíceis de ser executada. Em Doutor Fausto, Thomas Mann escreveu
que ao compor a Missa Solemnis Beethoven estava engajado "em uma
luta de vida e morte com todos os espíritos avessos ao contraponto"
para criar "as majestosas fugas do Glória e do Credo" numa
evidência de que finalmente "no combate com esse anjo o grande lutador
saía vencedor, posto que o terminasse com a coxa deslocada". Esta
difícil obra-prima foi regida com grande habilidade e maturidade por
Roberto Minczuk, o regente assistente da Sinfônica, de 33 anos, filho de um
pai emigrado da Ucrânia para o Brasil que se tornara um sargento-músico da
Banda da Polícia Militar de São Paulo.
Os destaques da
temporada 2000 da Sinfônica de São Paulo incluem apresentações de Benjamin
Britten – War Requiem, de Haydn – As Estações, a
3 a, 4a, e 6a Sinfonias de Mahler, o Concerto
para Orquestra de Bartok e as Sinfonias 1a, 4a e 9a de Beethoven. "Somos agora uma Orquestra de categoria
internacional", bradou John Neschling, diretor musical da Sinfônica,
53 anos, após ter conduzido um concerto all-Beethoven em abril.
"Hoje estamos entre as 50 melhores orquestras do mundo. Mas eu quero
mais: devemos nos tornar, dentro de cinco anos, uma das 10 melhores do
mundo". |
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Os novos
maestros
O sucesso inicial da Sinfônica de São Paulo dá ao
Brasil uma possibilidade de superar sua longa história de produzir
indivíduos brilhantes e instituições fracas. No século 20, as fraquezas
institucionais privaram o Brasil de seus melhores músicos, com possibilidade
de desenvolver seus talentos em seu próprio país. Como Neschling, alguns
dos mais proeminentes músicos brasileiros estiveram no exterior a maior
parte de suas carreiras: a soprano Bidu Sayão, no Metropolitan Opera;
pianistas como Magdalena Tagliaferro, Guiomar Novaes, Nelson Freire e Arnaldo
Cohen; os violoncelistas Aldo Parisot, Antonio Meneses e Eleazar de Carvalho,
maestro assistente da Orquestra Sinfônica de Boston sob regência de Serge
Koussevitsky, antes de se tornar diretor musical da Sinfônica de São Paulo
em 1973.
Filho de
refugiados de guerra judeus no Brasil, da família do compositor vienense
Arnold Schönberg, Neschling teve experiências frustrantes na década de 80
dirigindo precárias orquestras municipais na sua cidade natal, Rio de
Janeiro e em
São Paulo.
"Parti assim que vi que, a maneira como funcionavam, essas orquestras:
jamais teriam algum futuro", disse ele. Desde então uniu-se à nova
raça de regentes da era do jato, que servem simultaneamente como diretor
musical de duas ou mais orquestras em dois ou mais continentes e aparecendo
como o regente convidado de outras para preencher suas programações. Para
aqueles de maior prestígio este é um mercado do trabalho muito ativo, com
orquestras como as de Nova York, Filadélfia, Cleveland, Boston, Cincinnati
ou Atlanta procurando por novos diretores musicais neste ano. Neschling e
Minczuk parecem se ajustar bem ao perfil defendido por Anthony Tommasini,
crítico de música do The New York Times. Para o crítico, um regente
de orquestra em uma cidade grande deve ser também um líder artístico
dinâmico, capaz de forjar laços com outras instituições artísticas e
educativas, com intimidade com compositores vivos, com ousadia para montagens
com músicas novas não como um fardo pesado mas como uma atividade
tonificante, uma função natural do que fazem os músicos". Neschling
vive agora na Suíça, onde é diretor artístico do Staattheater de St.
Gallen. Conduz regularmente as orquestras do Teatro São Carlos de Lisboa, do
Teatro Massimo de Palermo e do Staatsoper de Viena. Sua regência operística
e sinfônica levaram-no a Londres, Milão, Roma, Genova, Verona, Florença,
Bordeaux, Praga, Bonn, Berlim, Hamburgo e a Washington, bem como a Beijin e
Xangai, como o primeiro regente latino-americano a se apresentar na China.
Neschling escreveu as partituras para filmes brasileiros clássicos tais como
Pixote, O Beijo da Mulher Aranha e Lúcio Flávio, e exibe seu
entusiasmo pelo Partido Verde (PV) e pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
Atualmente ele passa aproximadamente 16 semanas por ano no Brasil, regendo a
Sinfônica de São Paulo em 12 programas.
A carreira
internacional de Roberto Minczuk, regente assistente, também deslanchou.
Trompista da Orquestra Municipal de São Paulo aos 13 anos, aos 14 Minczuk
ganhou uma bolsa de estudos na Juilliard School of Music de New York. Seis
anos mais tarde foi convidado por Kurt Masur a juntar-se à Orquestra de
Gewandhaus de Leipzig, Alemanha, e hoje é regente principal da Filarmônica
de NovaYork. "Em 1987, quando estava se graduando na Juilliard, uma
audição para Masur no Carnegie Hall e para Leipzig, "uma cidade
escura, depressiva, de 450.000 habitantes, cuja maior atração era
música", disse Minczuk. O Gewandhaus (em português, Casa dos Têxteis)
cresceu a partir do Collegium Musicum da velha cidade mercante, fundada em
1723, e que Bach dirigiu em concertos nas casas de café, durante as últimas
duas décadas de sua vida. "Na Igreja do St. Thomas, onde Bach foi o
Cantor (diretor de música) por 27 anos, o Gewandhaus tocava cantatas de Bach
todos os domingos", acrescentou Minczuk. "Permaneci em Leipzig por
dois anos, onde eu me sentia muito sozinho, e ansiava voltar ao Brasil após
permanecer fora por oito anos. Leipzig tinha grandes editores de música,
cujas partituras eram muito baratas nos tempos do regime comunista. Eu voltei
para São Paulo com 200 quilos de partituras em minha bagagem". Masur
indicou mais tarde Minczuk para regente assistente da Filarmônica de Nova
York, um posto que ele ocupa até hoje. A vida ocupada de Minczuk como
regente convidado o levará a apresentar-se em 2000-2001 em Detroit, Houston,
Indianapolis, Denver, St. Paul, Charlotte, Los Angeles e no Lincoln Center de
New York regendo a Orquestra da Juilliard. Minczuk rege também nove
programas este ano para a Sinfônica de São Paulo e serve como diretor
musical da Orquestra Municipal de Riberão Preto no interior do Estado de
São Paulo.
O arquiteto do
renascimento da Sinfônica é Neschling, um empreendedor musical abrasivo e
exigente que rapidamente estabeleceu os novos padrões para o Orquestra. O
renascimento da Sinfônica começou em 1996, quando o secretário da Cultura
de São Paulo, Marcos Mendonça, telefonou para Neschling no Rio para
oferecer-lhe a direção artística da Orquestra, que estava praticamente
caindo aos pedaços. Mendonça quis Neschling porque precisava de um grande
nome para liderar a Orquestra, e Neschling tinha acabado de reger O
Guarany (de Carlos Gomes), a ópera mais famosa do Brasil, em
Washington, com Plácido Domingo como o tenor no papel principal. Alguns
meses depois do telefonema, Eleazar de Carvalho, que havia dirigido a
Orquestra por 23 anos, morreu após um longa luta contra o câncer. |
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As vacas magras
Nesta altura, seus
91 músicos estavam à deriva, com as esperanças minguando, porque as
décadas de inflação crônica haviam corroído seus salários e padrões
profissionais, forçando-os a fazer bicos com trabalhos incomuns, dando
aulas particulares e tocando em casamentos e bar mitzvahs. Seus baixos
salários, igualavam-se àqueles dos vigias noturnos e faxineiros, levando a
uma falta de intérpretes de instrumentos de corda. A Orquestra não tinha
escritório, telefone ou secretária. Somente 100 ou 200 ouvintes
compareciam a seus concertos esporádicos. Os músicos – de tão pobres
– nem tinham recursos para substituir cordas ou palhetas para seus
instrumentos, cujos preços se inflavam pelos brutais custos de
importação. Um encordoamento para contrabaixo ou violoncelo chegava a
custar o mês inteiro de salário do músico. Materiais para estudo,
métodos ou as partituras de concerto eram e ainda são impossíveis de
encontrar, somente podendo ser adquiridas dos editores no exterior a preços
altíssimos. Para se defenderem dos riscos da inatividade os músicos faziam
e ainda fazem toda sorte de malabarismos para arranjar o que precisam. As
fotocópias das partituras não raro acabam ficando ilegíveis depois de
diversas gerações de cópias furtivas sucessivas. Ainda continua sendo
impossível comprar partituras até para o treinamento elementar de
músicos. E tanta cópia pirateada acabou por contribuir para a extinção
das poucas lojas de música que ainda as vendiam nas grandes cidades. Fundada
em 1953, a Sinfônica indigente já havia sido forçada a suspender seus
concertos por duas vezes. Pela terceira vez, em 1996, parecia que tudo
estava indo por água abaixo. Neschling já tinha enfrentado uma situação
similar em 1983 quando abandonou o pódio da Orquestra do Teatro Municipal
de São Paulo após um desentendimento com a direção. "O governo
[municipal] anterior assumiu compromissos que não podia honrar", disse
ele na ocasião. "Nenhum programa sólido pode avançar sem recursos
adequados. Nós herdamos planos majestosos que tivemos que abandonar porque
eram financeiramente impossíveis".
Em 1996 Neschling
respondeu friamente à proposta de assumir a Sinfônica de São Paulo. Ao
invés de ir para São Paulo a convite de Mendonça para discutir a oferta,
disse ao Secretário para ir encontrá-lo no Rio. No Rio, o determinado
Mendonça ouviu de Neschling: "eu não preciso da Orquestra. A
Orquestra é que precisa de mim". Sua dureza foi expressa em suas
demandas: (1) construção de uma sala de concertos permanente; (2)
triplicar o salário dos músicos e; (3) através de concurso público,
elevar o nível do pessoal da Orquestra, eliminando dos quadros os menos
competentes e contratando músicos estrangeiros com um nível salarial
internacional.
Mendonça anotou
tudo e começou a tentar atender as demandas de Neschling. Alguns meses mais
tarde Mendonça conseguiu reunir Neschling com o governador. O Estado de
São Paulo estava virtualmente falido, imerso na pior crise fiscal de sua
história, renegociando dívida já vencida e não paga de R$6 bilhões de
juros anuais. Covas achou as condições de Neschling "demasiado
caras". Neschling repetiu as palavras mágicas: "eu não preciso
da Orquestra. É a Orquestra que precisa de mim". Covas fechou. O
governo do Estado, que estava transferindo suas estradas de ferro às
autoridades federais para saldar seus débitos, já tinha decidido manter a
linda velha estação Júlio Prestes para usos culturais. Quando a nova sala
de concertos foi aberta, Covas anunciou que "as opções relacionadas
à cultura substituiriam a velha premissa de que somente os enormes e caros
projetos de infra-estrutura poderiam mudar a cara da vizinhança. O centro
velho de São Paulo, deteriorado e quase destruído por décadas de
abandono, exige este tipo da solução".
Assim os
freqüentadores de concertos que enchem os 1.509 assentos da nova Sala São
Paulo chegam de carro, cruzando a vizinhança degradada da velha estação
rodoviária, estacionando em instalações subterrâneas bem protegidas e
voltando para casa através da zona do meretrício sem nenhum contato com a
escória social. A conversão da velha estação ferroviária na Sala de
Concertos custou aproximadamente US$30 milhões, uma soma minúscula
comparada com os bilhões de dólares desperdiçados no passado nas obras
públicas viciadas de corrupção que nunca ficaram prontas. "Eu não
sabia como projetar uma sala de concertos" disse Nelson Dupré,
arquiteto encarregado de remodelar a estação. "Ninguém no Brasil
sabia. Ao mesmo tempo nós tivemos que preservar um edifício histórico
protegido pela lei. Muitas firmas de construção brasileiras só querem
extrair o dinheiro graúdo das obras públicas e não se importam em
terminar o trabalho. O esforço me arranjou algumas úlceras, mas nós
aprendemos rapidamente e terminamos dentro do orçamento e do prazo".
"A Orquestra cria uns 300 empregos e uma imagem melhor para São Paulo
ao custo de apenas um metro de um dos caríssimos túneis de tráfego de
São Paulo", diz Neschling. |
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Baliza cívica
A Sinfônica e a
Sala São Paulo criam uma baliza cívica para esta imensa metrópole, que se
espraia por 8.000 quilômetros quadrados, que engolfa ilhas de excelência e
espalha-se desordenadamente, ameaçada pela falência institucional. A
excelência de São Paulo nos setores de engenharia, finanças, medicina,
indústria, comércio, moda e comunicação de massa é minada por
episódios desmoralizantes de corrupção, rebeliões nos presídios,
sistemas de saúde e educação pública falhos, assaltos a mão armada, e
assassinatos nos semáforos de cruzamentos de tráfego. Ainda mais chocante
que os 11.500 homicídios na Grande São Paulo é a sua tolerância com os
homicídios. Talvez a astúcia política de Covas em apoiar a Orquestra
resida na esperança de que isso propiciará um sucesso institucional de que
se necessita desesperadamente para ajudar a restaurar o orgulho cívico
esmaecido de São Paulo.
São Paulo ainda
inspira uma mistura de ternura e indignação, e talvez até mesmo de alguma
esperança. Apesar das falhas institucionais que truncam o progresso, houve
bons ganhos nos padrões de vida desde que a inflação crônica foi contida
em 1994. A nova Orquestra e os investimentos na cultura devem reforçar a
transição de São Paulo da economia industrial para a de serviços.
Essa nova baliza
cívica toma corpo na inspirada transformação da Estação Júlio Prestes
da velha Estrada de Ferro Sorocabana na Sala São Paulo. A própria
estação é um marco das mutações na economia e na sociedade de São
Paulo. De acordo com o arquiteto Alcino Izzo Junior: "como uma parte
integral da história de São Paulo, esta estação bonita testemunhou
diversas mudanças em seus arredores. Viu uma cidade calma enriquecida pelo
café se transformar 'no maior centro industrial da América Latina' e
então coexiste com os contrastes violentos de uma megalópole que muda
constantemente e que anda quase fora do controle".
Incorporada em
1872 por um grupo de fazendeiros de café, a Sorocabana transformou-se
eventualmente na mais longa linha de estrada de ferro do estado de São
Paulo, indo do porto de Santos às fronteiras com o Paraná e Mato Grosso,
abrindo portanto terras novas que viriam a se transformar numa das regiões
agrícolas mais ricas do mundo. Energizada pela especulação da terra e por
garantias financeiras federais para estradas de ferro que absorviam um
terço do orçamento do governo do Brasil em 1898, a Sorocabana, atulhada em
dívidas, foi assumida pelo Governo Federal em 1902, junto com outras
ferrovias, numa operação financiada com capitais estrangeiros. O governo
do Estado de São Paulo comprou-a em 1907 e fez um contrato de leasing com
um grupo franco-americano em troca de fundos para o subsídio ao café. O
estado a comprou de volta em 1919 num negócio controvertido em que foi
acusado de pagar 10 vezes seu valor real para beneficiar um acionista
importante. Hoje o estado opera o que sobrou da Sorocabana como uma linha
suburbana após ter transferido o resto da estrada de ferro ao governo
federal em 1998, como parte do resgate de um débito US$50 bilhões.
A Estação Júlio
Prestes, modelada na grandiosidade das estações Pennsylvania e Grand
Central de Nova York, recebeu o nome de um governador de São Paulo, chefe
da violenta região de Sorocaba, cuja campanha para a Presidência terminou
com uma revolução que escorraçou a República Velha dominada pelos
latifundiários (1889-1930). O Grande Hall da estação, com suas palmeiras
e colunas em estilo coríntio de mármore italiano, compreende uma área de
984 metros quadrados, concebida como "um portal da cidade" e
"a maior sala do Brasil". Sua torre imponente, com um enorme
relógio, é um marco no coração da cidade que se espalha num oceano de
bairros similares e desprovidos de graça.
A construção da
Estação Júlio Prestes, financiada com mais empréstimos estrangeiros ao
governo do Estado, começou durante a expansão cafeeira da metade dos anos
20 e parou com a crise de 1929. Depois de diversos recomeços e paradas, e
brigas entre o arquiteto e a estrada de ferro sobre mudanças no projeto, a
estação foi aberta em 1938 sem um telhado permanente para o grande Hall,
coberto "temporariamente" com um teto de vidro e aço num formato
de hangar. O Hall foi usado ocasionalmente para recepções, desfiles de
moda e concertos até que foi descoberto pela Artec Consultants, a firma de
engenharia acústica de Nova York contratada em 1996 pelo governo do estado
para atender à demanda de Neschling para uma nova casa para a Sinfônica.
Seu formato de caixa de sapatos era ideal para a execução sinfônica.
Russell Johnson, da Artec, percebeu que "o volume e as proporções do
pátio eram comparáveis àqueles das famosas salas de concerto européias,
tais como o Musikverein em Viena".
Mas havia alguns
problemas técnicos. O primeiro era isolar a sala de concertos do ruído dos
trens suburbanos no terminal, escavando o piso principal para colocar uma
nova laje à prova de som para absorver as vibrações. Os novos balcões e
camarotes também tiveram de ser isolados acusticamente. O teto foi
recoberto com 15 painéis móveis de madeira que podem ser levantados
individualmente ou abaixados para adaptar a acústica aos diferentes tipos
de execução. As poltronas do piso principal são removíveis para que o
espaço possa ser usado para outras funções. Os escritórios da estrada de
ferro do andar superior foram convertidos em salas separadas, com tratamento
acústico para os ensaios de naipe (cada grupo de instrumentos) ao longo de
um tranqüilo corredor de mármore, um tipo da facilidade que falta no
Philharmonic Hall no Lincoln Center de Nova York e em muitos dos grandes
auditórios de concerto do mundo. |
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Ouro
velho, lutas novas
O desafio
principal para a música brasileira sempre foi a continuidade. Alguns dos
melhores produtos do passado musical do Brasil foram esquecidos e
redescobertos só recentemente. Numa colônia portuguesa onde as prensas
tipográficas e as universidades eram proibidas, a música
barroca/clássica, principalmente a música de igreja, transformou-se na
principal forma artística de expressão e patrocínio oficial. Em seu História
da Música Brasileira (1976), Bruno Kiefer explica o surto de
criatividade musical durante a corrida do ouro do século XVIII em Minas
Gerais em termos "da presença em grande escala do mulato como
profissional livre de música com um desejo intenso de ascensão às
maneiras da classe dominante". Na florescente cidade de Ouro Preto, os
musicólogos documentaram a presença de uns 250 músicos profissionais no
século XVIII, principalmente de emigrantes de Recife e Salvador, tocando a
música de câmara em residências dos ricos assim como a música de igreja,
a mais abundantemente preservada. São Paulo teve seu próprio mestre de
capela [capellmeister], organizando a música de igreja já em 1649. Seu
ponto alto do sucesso musical começou em 1774 quando o compositor
português André da Silva Gomes tornou-se mestre de capela, lá
permanecendo até sua morte em 1844 com a idade de 92 anos. Deixou uma rica
herança de partituras litúrgicas, muitas encontradas em velhos arquivos e
restauradas pelo musicólogo Régis Duprat. É difícil imaginar como uma
música esplêndida tal como a missa de Silva Gomes para oito
vozes, acompanhada por órgão, flautas e cordas, poderia ser
produzida na pequena igreja da Sé, com paredes de taipa, numa colina
cercada de brejos, para grupos de fiéis rústicos, principalmente mulheres,
crianças e velhos, pois os homens mais jovens já tinham partido para
aventurar-se no tráfico do ouro.
Nunca saberemos
quanto dessa música antiga ficou perdida. Quando os musicólogos estimam
que somente um quinto das partituras de Johann Sebastian Bach sobreviveram
ao século XVIII, as perdas do mesmo período são muito maiores nas cidades
tropicais tais como Salvador e Olinda, onde os arquivos foram destruídos
pelo calor, umidade e cupins. No século XIX, a maior parte da composição
clássica brasileira descambou para fracas imitações da ópera italiana.
Mas uma fusão das culturas popular e formal se desenvolveu, com os escravos
no Rio de Janeiro tocando em orquestras sinfônicas e em coros de igreja. De
acordo com a historiadora Mary Karasch:
O processo de
misturar-se instrumentos africanos e europeus e tradições musicais
começou em parte com estes músicos, que tocavam composições européias
para a família real em concertos noturnos e no dia seguinte ajudavam a
irmandade do Rosário a comemorar um dia de festa no estilo Afro-Carioca.
Outras bandas de escravos desfilavam na cidade com instrumentos europeus, ou
faziam serenatas para clientes brancos com violinos, enquanto estes faziam
seu corte de cabelo. As ruas do Rio no século XIX eram verdadeiramente uma
cacofonia de tradições musicais que se misturaram num estilo brasileiro
harmonioso e único, em parte epitomizado pela tradição do choro com a
graciosa música da flauta sobreposta em bandolins mas baseada numa batida
do batuque, dos reco-recos e dos tamborins. Em algum lugar entre o passeio
dos músicos de rua que tocavam guitarras européias e os africanos que
dançavam o batuque dos tambores, as duas tradições musicais se uniram, e
o processo de mesclagem dos instrumentos e tradições musicais já estava
em pleno curso por volta da metade do século XIX.
Enquanto a música
popular florescia e ganhava fama internacional, os compositores e as
orquestras clássicas brasileiras lutaram durante todo o Século XX com
problemas da continuidade. Não obstante, houve alguns sucessos. Francisco
Braga (1868-1945), cujas Variações sobre um tema brasileiro serão
publicadas em breve pelo Centro de Documentação da Sinfônica de São
Paulo, começou a estudar música no Asilo de Meninos Desvalidos, no Rio de
Janeiro. Em 1889 ganhou uma bolsa para estudar em Paris, onde foi o primeiro
colocado no concurso para entrar no Conservatório de Música. Permaneceu na
Europa por uma década, executando, compondo e tornando-se partidário da
música de Richard Wagner, antes de retornar ao Brasil em 1900 para ensinar,
reger e produzir muitas obras de câmara e para orquestra. Em 1920 Richard
Strauss regeu no Rio de Janeiro o poema sinfônico Marabá de autoria
de Braga.
Uma outra
história do sucesso foi a de Radamés Gnattali (1906-88), cujo excelente Concerto
para Viola foi executado pela Sinfônica em abril 2000. Gnattali
começou sua carreira tocando em cinemas e em salões da dança na sua Porto
Alegre natal e no Rio de Janeiro. Mais tarde combinou sua prolífica
composição clássica com elementos do chôro e do samba.
Orquestrou para a Victor Records e regeu Orquestra da Rádio Nacional além
de compor música para novelas de TV famosas como Roque Santeiro.
Embora seu trabalho fosse executado e gravado por orquestras da Europa e dos
Estados Unidos, Gnattali passou a maior parte de sua carreira no Brasil, ao
contrário de muitos outros importantes músicos brasileiros.
Heitor Villa-Lobos
(1887-1959), o gigante da música brasileira do século XX, tocava
violoncelo em cinemas e cabarés como um compositor jovem que se punha sob a
influência da música de rua do Rio de Janeiro, especialmente o chôro, que
ele desenvolveu numa forma clássica. Suas viagens pelo sertão do Brasil
lhe deram uma afinidade com a música popular que extravasa de suas 2.000
obras, que incluem óperas, ballets, música de câmara e uma vasta
produção para violão solo. Em 1997 iniciou-se um ciclo de gravações em
CD com todas as 11 sinfonias de Villa-Lobos como um projeto conjunto da
Pacific Symphony da Califórnia e da Orquestra Sinfônica da Rádio de
Stuttgart, frustrada somente pela impossibilidade dos musicólogos
encontrarem a partitura de sua 5a. Sinfonia.
Apesar desses
sucessos individuais, bases institucionais da música clássica brasileira
continuam fracas. A Orquestra Sinfônica Brasileira, do Rio de Janeiro, a
mais antiga do país, sofre de penúria crônica, freqüentemente incapaz de
pagar salários dos músicos por meses a fio. Mesmo assim, os músicos não
se mostram dispostos a desistir. Diz-se que haveriam 153 regentes de
orquestras e corais ativos só no Estado de São Paulo. Luís Antônio Giron,
crítico de música da Gazeta Mercantil, de São Paulo, observa
que "no Brasil há quem se impressione pela existência de pelo menos
100 grupos – sinfônicos e de música de câmara, profissionais e
acadêmicos. Estes números sozinhos fariam do Brasil uma das grandes
potências sinfônicas do mundo. Mas nada parece funcionar direito, com uma
ou outra exceção. As orquestras não conseguem estabelecer-se e produzir
música de alta qualidade numa nação conhecida pela sua musicalidade. Elas
enfrentam deficiências crônicas: orçamentos e salários baixos; falta de
interesse do setor privado em patrocinar instituições musicais públicas;
falta de instrumentos e de espaço para ensaios e apresentações; falta de
bons instrumentistas de cordas. Dúzias de músicos, maestros e gerentes das
principais orquestras do Brasil, entrevistados para este artigo, queixam-se
que são sujeitas às mudanças de humor dos políticos. Qualquer mudança
no partido que está no poder pode destruir um projeto e um sonho".
Como nota Giron,
há algumas exceções. Uma é a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto,
uma cidade de 500.000 habitantes no centro mais afluente do agrobusiness no
interior do estado de São Paulo, regida pelo mesmo Roberto Minczuk, que
conduziu a poderosa apresentação da Missa Solemnis de Beethoven em
março último na OSESP. A Orquestra de Ribeirão Preto dá 50 concertos de
alta qualidade por ano com o apoio do governo para menos de 20% de seu
orçamento de R$300.000 anuais. Outras orquestras bem sucedidas, tais como
as de Campinas e Santo André, dependem quase que completamente dos fundos
municipais para sobreviver. A Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas,
já tem 25 anos
de existência. Os músicos que tocavam no primeiro ano de vida da
Orquestra, em 1975, recordam que duos, trios, quartetos, quintetos e outros
grupos de câmara foram criados dentro da Orquestra para estimular o
surgimento de um público para a Sinfônica da cidade. Tocavam em casas de
família, em praças, em salões e escolas públicas. Em seus 12 anos da
vida a Orquestra de Santo André, no ABC de São Paulo, fez ensaios abertos
para mais de 10.000 crianças, envolvendo-se com as comunidades
circunvizinhas e até conseguiu encenar uma ou duas óperas. Para estas e
outras orquestras menores, a OSESP estabeleceu um padrão novo. "Antes
disso, nós olhávamos para as orquestras européias como nosso
modelo", diz Antônio Carlos Neves Pinto, o novo regente da incipiente
Sinfônica de São Caetano. "Agora o Neschling trouxe o nosso modelo
para mais perto de casa." |
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A nova Orquestra
O renascimento da
Orquestra significou, entre outras coisas, a mobilização de talentos
musicais fora do Brasil, especialmente dos artistas brasileiros trabalhando
no exterior. Um desses é Ricardo Bolonha, um percussionista brasileiro de
29 anos que morou seis anos em Genebra antes de candidatar-se para a
Orquestra, à qual juntou-se em junho 1999, um mês antes da abertura da
Sala São Paulo. "Na Suíça, onde eu estava estudando, ganhava
aproximadamente US$2 mil por mês e tive que fazer bicos como free-lancer",
diz Bolonha. "Aqui eu ganho US$3 mil por mês, tenho estabilidade por
pelo menos 12 meses e é musicalmente interessante". Na verdade, há
estabilidade ma non troppo com a Orquestra. Os contratos de trabalho
são renovados a cada 12 meses e os músicos têm poucos direitos
trabalhistas. A Orquestra, atualmente na folha de pagamento do governo,
está constituindo uma organização social privada sem fins lucrativos, que
com um contrato com o governo do estado receberá recursos para cobrir os
salários dos músicos.
O mercado de
trabalho para os músicos permite que a Orquestra exija padrões elevados em
seu recrutamento, com estrangeiros, na maior parte russos e romenos,
ocupando hoje um quinto de suas estantes. "Todas as grandes orquestras
em todo o mundo são caldeirões multiculturais", diz Neschling.
"Todos têm músicos de diversos países". Em abril, 11 músicos
estrangeiros vieram a São Paulo - por sua própria conta - para um
concurso. Nenhum atendeu aos rigorosos padrões de um júri composto pelos
regentes e pelas primeiras estantes da Orquestra.
Roman Mekinulov, o
corpulento primeiro violoncelista da orquestra, com 27 anos, migrou de São
Petersburgo para Nova York em 1985 com seus pais e recebeu dois títulos da
Juilliard antes de trabalhar como substituto na Filarmônica de Nova York.
Respondendo a um anúncio na revista International Musician, ele
concorreu em Nova York para uma vaga na Sinfônica de São Paulo em 1997.
"Essa é uma orquestra jovem, com as forças e fraquezas de uma
orquestra jovem", diz Mekinulov. "Ela tem energia e entusiasmo de
sobra mas necessita de mais experiência. Neschling é um grande
motivador".
Embora a
Sinfônica tenha melhorado imensamente, ela ainda tem uma montanha para
escalar. As principais dificuldades das orquestras brasileiras – ensaios
insuficientes e impossibilidade de empregar músicos em tempo integral–
foram superadas, permitindo à Sinfônica alcançar níveis de
profissionalismo e qualidade nunca antes vistos no Brasil. E ela vai
superando rapidamente as deficiências nos instrumentos de corda tão comuns
entre os conjuntos brasileiros. Seus regulamentos mostram éticas intensas e
ambiciosas do trabalho. Como as principais orquestras americanas e
européias, a Sinfônica de São Paulo se prepara para cada concerto em
cinco ensaios regulares e um ensaio geral. Os ensaios vão de 9:30 às 12:30
às segundas, quintas e sextas-feiras. Nas terças e quartas-feiras há
ensaios em dobro, das 9:30 ao meio-dia e das 14:00 às 16:30. A Sinfônica
de São Paulo pede para ser julgada pelos padrões mais elevados. Em seus
picos pode alcançar grandes alturas mas quando toca abaixo de seu potencial
ela tem ainda alguma distância para manter a qualidade uniforme das
principais orquestras. Neschling e Minczuk estão certos: a Sinfônica
necessita de pelo menos mais cinco anos para estabelecer-se entre as
melhores do mundo.
"Antes do
Neschling, a Orquestra era principalmente um bando de funcionários
públicos envelhecidos e mal pagos e de origens humildes, muitos somente com
educação primária ou secundária, alguns dos quais eram músicos
autodidatas que tinham dificuldades para ler uma partitura", diz
Marcelo Lopes, um trumpetista de 35 anos de idade que é presidente da
Associação dos Músicos. Veterano com 16 anos de Orquestra, Lopes é
também advogado de carreira e graduado em Economia pela Fundação Getúlio
Vargas. "Por volta de 1996, antes da reorganização, eu estava pronto
para parar com a música e ir trabalhar no Banco Central. Agora a Orquestra
é muito mais jovem e quase todos nós temos uma formação universitária.
Nós estamos sendo constantemente reavaliados e sabemos que precisamos
correr riscos. A Sinfônica tem de sair do setor público para que nós
possamos levantar mais facilmente o dinheiro para assegurar a sobrevivência
da Orquestra".
A reorganização
da Sinfônica de São Paulo em 1997 foi um tanto mais gentil com os músicos
que a fusão da New York Philharmonic com a Sinfônica de Nova York em 1928,
quando todos os músicos de ambas as orquestras foram demitidos antes que
alguns fossem escolhidos para a nova Orquestra. Dos 66 membros permanentes
da antiga Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, 43 recusaram-se a se
apresentar numa audição para Neschling. Como funcionários públicos,
foram deslocados para a Sinfonia Cultura da TV Cultura, do Estado,
especializando-se em música brasileira.
Um que se apresentou com sucesso
naquela audição foi o flautista Marcelo Barbosa, 32, que juntou-se à
Sinfônica em 1994 e viveu intensamente as condições precárias do passado
recente. "O Maestro Eleazar de Carvalho nunca teve o apoio político e
nunca pôde criar condições estáveis para seus músicos", diz
Barbosa enquanto assiste alguns de seus colegas jogarem ping-pong na
sala dos músicos. "Nós não poderíamos sequer sonhar com nossas
atuais condições de trabalho. As partituras certas estão sempre nas
estantes de música para os ensaios, com os lápis sempre apontados para
anotações. Agora há sete empregados cuidando dos arquivos. A temporada é
planejada com bastante antecedência. Eu já sei hoje o que nós vamos tocar
em novembro, em que sala e hora. A improvisação foi banida de nossas vidas
diárias".
Uma das principais
tarefas do novo Centro de Documentação da Musical é alugar partituras dos
editores estrangeiros, um dos entraves que enfrenta uma qrquestra na
periferia do mundo musical. "Temos de requisitar partituras com seis
meses de antecedência e nunca temos certeza de que chegarão para serem
dadas aos músicos 15 dias antes do primeiro ensaio", diz Maria Elisa
Pasqualini, que opera o centro. "Pagamos US$2,000 por cada
apresentação de uma partitura. As partes individuais faltam
freqüentemente. Nós precisamos de tempo para apagar as marcas de arcadas
feitas pelas orquestras que alugaram as partituras antes de nós. Lidamos
com 30 editores, cujas partituras são sujeitas a atrasos no transporte e na
alfândega. Uma editora importante de Londres, a Boosey & Hawkes,
somente aluga através de um agente na Argentina que então nos envia as
partituras".
O Centro de
Documentação, com um arquivo que já vale US$1 milhão, restaura e publica
partituras musicais brasileiras negligenciadas, inclusive da rica literatura
Século XVIII. Entre 22 trabalhos já publicados estão Passacaglia para
o novo Milênio (1999) de Edino Krieger, comissionada pela Orquestra; a Issa
Overture (1998) de Gilberto Mendes e a Sinfonia No. 3, de Mário
Ficarelli (1993), assim como o Recitativo e Ária, de autor anônimo
do século XVI, considerada a composição brasileira mais antiga. Oito
trabalhos serão publicados durante 2000-01 incluindo a Sinfonia de
Henrique Oswald e a Serenata Concertante de Paulo Costa Lima, Zemira,
do padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830) e Tercio, de
Emerico Lobo de Mesquita, um compositor mulato do Século XVIII de Minas
Gerais.
"Enquanto a
Orquestra mantiver sua qualidade, ninguém ousará me tocar", diz
Neschling. "A qualidade garante a estabilidade". Entretanto, a
Sinfônica não pode se dar ao luxo de relaxar seus esforços para superar
as fraquezas institucionais do Brasil e os altos e baixos da política de
São Paulo. A continuidade no renascimento da Sinfônica, e sua busca pela
melhoria, dependem do contínuo apoio político e do patrocínio privado.
Bases
financeiras
É útil comparar
a base financeira e a escala de pagamentos de sete orquestras: a OSESP, as
Filarmônicas de Berlim, Nova York; e Londres e as duas do Estado de São
Paulo, nas cidades menores de Campinas e de Ribeirão Preto.
Alguns destes
números revelam grandes diferenças na autonomia destas orquestras. A
Filarmônica de Nova York é a mais independente, visto que somente US$200
mil de um orçamento US$50 milhões anuais vêm do governo. O resto vem da
bilheteria , dos contratos de gravação, das turnês e, sobretudo, das
contribuições com incentivos fiscais de pessoas e empresas. Para a Royal
Phillarmonic de Londres, o apoio do governo é menos do que 10% de seu
orçamento de US$6,3 milhões anuais. Por outro lado, a Filarmônica de
Berlim recebe o apoio do governo para a metade de seu orçamento de US$25
milhões, dentro da tradição européia de subsídios públicos generosos
para suas muitas orquestras e teatros de ópera.
A orquestra menos
dependente da sustentação do governo, a New York Philharmonic, paga os
salários mais elevados de, em média, US$10,000 por mês. Mas seus músicos
são também os que trabalham mais arduamente: 200 concertos por ano, contra
150 na Royal Philharmonic e 130 na Berlim Philharmonic. As orquestras
brasileiras não excedem 90 concertos por ano. São nossas orquestras, como
recursos culturais caros, subtilizadas? O orçamento da Sinfônica de São
Paulo é maior do que o da Filarmônica de Londres, sugerindo que a questão
básica não é arranjar mais dinheiro mas diversificar as fontes de
financiamento da Orquestra. Assim o levantamento de fundos e o marketing
tornam-se críticos para a sustentação a longo prazo.
Uma cruel ironia
da vida cultural do Brasil é que alguns brasileiros ricos são
patrocinadores da New York Philharmonic, do Museu da Arte Moderna de Nova
York, do festival de Salzburg na Áustria, e das universidades de Harvard e
de Oxford enquanto negligenciam o apoio para instituições brasileiras.
Entrementes, as corporações multinacionais gastam somas enormes para
trazer orquestras estrangeiras ao Brasil. Em anos recentes o Citibank trouxe
a New York Philharmonic, a Siemens trouxe a Berlim Philharmonic e a Philips
patrocinou a vinda da Amsterdam Concertgebouw. Estas companhias e
indivíduos são importantes fontes potenciais de sustentação para a
Orquestra de São Paulo. Os R$15 milhões levantados no ano 2000 de fontes
privadas para a Mostra dos 500 Anos do Brasil, em São Paulo, prova que é
possível mobilizar as empresas para o apoio cultural.
"Nós,
realisticamente, não podemos esperar estarmos livres da sustentação do
governo", diz Cláudia Toni, diretora executiva da Orquestra. "A
Orquestra Sinfônica Brasileira do Rio é indigente porque sempre dependeu
do apoio privado. O que nós podemos fazer é obter mais apoio privado para
reduzir nossa dependência da política". Um gestor comissionado de
captação de recursos obteve R$2 milhões em doação da Terra, o provedor
de serviços de Internet de propriedade da Telefónica da Espanha, que em
1998 ganhou um leilão para privatizar a companhia de telefones de São
Paulo. A doação da Terra aumentou em mais de um terço o orçamento da
Sinfônica, permitindo que a Orquestra investisse mais em contratar maestros
e solistas e na promoção e propaganda. Mas a Orquestra ainda precisa
arranjar um patrocínio comparável para a temporada de 2001, que abrirá
com Neschling regendo a Missa em Si Menor de Bach.
Neschling anuncia
sua idéia das quatro colunas que sustentam a Orquestra em cada concerto na
Sala São Paulo: apresentações, excursões, gravações e patrocínio
privado. "Vocês tem que encher a Sala a cada semana", grita
Neschling do pódio. A Sinfônica desenvolveu uma nova fórmula para as
subscrições da temporada, que antes nunca haviam sido promovidas desde a
criação da Orquestra em 1953. Uma assinatura para nove dos 39 concertos da
temporada por R$50, é tão barato quanto entradas de cinema, e ainda com
meia entrada para aposentados e estudantes. Os assinantes da temporada
receberam um CD duplo com a gravação ao vivo de Neschling regendo a
Segunda Sinfonia de Gustav Mahler —Ressurreição no concerto inaugural de
julho 1999 da Sala São Paulo. Com esta estratégia, 2.274 assinaturas foram
vendidas, um número nunca antes alcançado para uma série local de
concertos. As sociedades de concertos de São Paulo, que promovem
apresentações de artistas internacionais famosos, nunca venderam tantas
assinaturas assim. "Queremos vender 3.000 assinaturas para a temporada
de 2001", diz Toni. Cada assinante receberá dois CDs: um do concerto
de Neschling (Beethoven) e outro, regido por Minczuk, de música brasileira,
com Heitor Villa-Lobos–Choros 10 - O Descobrimento do Brasil e com
Mozart Camargo Guarnieri – Sinfoniano No. 2.
Uma outra coluna
que sustenta o renascimento da OSESP é a música gravada. O CD e a Internet
mudaram o negócio da música clássica. As orquestras americanas de alto
custo, como as de Boston, Filadélfia, San Francisco e Cleveland, fixaram
seu preço acima das realidades da indústria fonográfica. O CD clássico
de alta qualidade transformou-se numa commodity, com excelentes
orquestras de baixo custo, como as da Europa Oriental e de São Paulo, agora
desfrutando uma vantagem comparativa internacional. Negociadores para as
grandes orquestras e teatros de ópera, os sindicatos de músicos e as
companhias de Internet estão se engalfinhando com as dificuldades legais e
técnicas em pagar royalties aos intérpretes pela música ao vivo e gravada
via Internet. O CD também levou a música de câmara de volta ao lugar em
que nasceu, o lar, onde pode ser apreciada no conforto e na intimidade e
onde os ouvintes podem escolher a música na hora sem ter que comprar
ingressos com antecedência e saírem para ir até à sala de concertos. Os
CDs proporcionam uma vantagem especial à Sinfônica de São Paulo, que pode
construir sua própria marca de qualidade no grande mercado potencial
brasileiro, através dos clubes de discos e de outros canais de
distribuição, e fornecer música clássica brasileira a um mercado
internacional saturado com o repertório tradicional. |
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A função cívica da música
Entretanto, a
música sinfônica ao vivo nas salas de concertos, em contraste com a
música de câmara, tem uma função cívica. A função cívica da
música é virtualmente tão antiga quanto a própria sociedade humana.
Desde os tempos primordiais, de acordo com o historiador William
McNeill, um membro do Instituto Fernand Braudel:
…grandes
bandos, sustentados pelos efeitos colaterais emocionais do canto e da
dança, eram capazes de cooperar com mais eficácia. Com certeza,
aqueles que se engajavam em tais exercícios tiveram vantagens tais que
somente aqueles que haviam aprendido a dançar e fazer os sons em
conjunto conseguiram sobreviver. O canto ritmado e a dança
transformaram-se assim num traço humano distinto já que nenhuma das
outras espécies conseguiu jamais inventar espontaneamente esta maneira
de se expressar e reforçar as ligações sociais em fazê-lo.
As orquestras
sinfônicas são um fenômeno urbano, ícones cívicos que ajudam a dar
forma e preservar a identidade de suas comunidades. As orquestras
sinfônicas floresceram primeiramente na Europa do século XVIII,
quando a urbanização se acelerou. Antes, no século 13, os músicos
nômades começaram a estabelecer-se nas cidades mercantes que
cresciam, apresentando-se em festividades cívicas, religiosas e
particulares. Johann Sebastian Bach passou a maior parte de sua vida
(1685-1750) como um funcionário municipal, cujo o trabalho era criar,
organizar e dirigir música para a igreja e ocasiões cívicas.
Para a
Sinfônica de São Paulo dar certo, ela deve consolidar sua função
cívica, alcançando novos públicos ou, como diz Milton Nascimento,
"ir aonde o povo está". Ir para onde o povo está significa
alcançá-lo nos dispersos aglomerados humanos na imensidão da Grande
São Paulo, onde milhões de pessoas decentes procuram formas mais
civilizadas de vida. Significa atingir pessoas como Maria Marciana do
Nascimento, uma cliente de 50 anos de idade da casa Beth Lobo, um
abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica no subúrbio de
Diadema, que escreveu a Claudia Toni, diretora executiva do Sinfônica,
após ter assistido a um de seus concertos como convidada da Orquestra:
Participei do
grande evento que é a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.
Achei divino, uma sensação maravilhosa, de plenitude. Não existe
nenhuma coisa melhor para uma terapia mental, pois é algo que alegra
à alma e o espírito. Na minha opinião este evento deveria se repetir
com mais freqüência para que nós, participantes do Grupo de
Reflexão da Casa Beth Lobo, pudéssemos ter a oportunidade de estar
novamente participando deste momento de beleza e plenitude.
A Sinfônica
enfrenta assim dois desafios para assegurar ainda mais seu
desenvolvimento e sobrevivência. Primeiramente, deve ir aonde o
dinheiro está, procurando doações privadas substanciais em uma
cidade notoriamente fraca de lideranças cívicas. Ela não pode se dar
ao luxo de amadorismo no levantamento de recursos. Deve construir sua
própria equipe de funcionários profissionais na captação de
patrocínios e trabalhar sistematicamente para fixar um orçamento de
cinco anos que livre a Orquestra da dependência total dos caprichos
dos políticos e garantir a qualidade e a estabilidade do trabalho
artístico. Os meios de comunicação bem que podiam reconhecer a
orquestra como um ativo cívico importante, comentando seus concertos
com regularidade e gerando o tipo de crítica inteligente, como
público, de que todo artista precisa. Um grande passo está sendo
dado, depois de longa demora, para dar forma a uma nova Associação
dos Amigos da Orquestra, anunciada para janeiro 2001, uma organização
sem fins lucrativos que receba fundos do governo para pagar os
salários dos músicos e para organizar cidadãos proeminentes para que
mobilize o apoio privado. Porém fica a dúvida se este prazo será
cumprido.
"Começamos
trabalhar nisso em 1997", diz Dalmo Noqueira do Valle, assistente
de Covas que influiu na reorganizazação da orquestra. "Mas o
andamento do governo é lento. O assunto virou menos importante depois
que Covas foi reeleito em 1998 e a Orquestra andava bem". Essa
atitude tão relaxada pode retratar os horizontes limitados dos
políticos com visão que não extende além de seus anos no poder. A
nova "organização social" deve ser chefiada por um líder
de destaque, com responsabilidades permanentes e que goze de respeito e
bons contatos entre políticos e a comunidade de negócios. Mas
Neschling teme, equivocadamente talvez, que a liderança cívica dos
negócios e arrecadação de fundos para a orquestra fatalmente
interfereria na autoridade artística do regente. Muitos músicos da
orquestra temem que o futuro da Sinfônica possa ser duvidoso se a nova
"organização social" não estiver operando efetivamente com
liderança privada antes do fim do governo Covas em 2002.
"Esta é
a minha preocupação principal", diz Neschling. "Não é
questão de sobrevivência, já que atingimos níveis de qualidade que
serão difíceis de destruir. Mas a falta de autonomia legal e
administrativa nos leva a perder muito tempo resolvendo problemas
miúdos com os rituais burocráticos do setor público. Não podemos
escolher nossos fornecedores de serviços e materiais porque esses
contratos agora precisam de licitação pública, que é lenta e nem
sempre dá o melhor desempenho. Regras do governo restringindo
pagamentos em moeda estrangeira nos impedem de contratar solistas,
regentes e outros músicos no exterior. O governo tem um dever com a
orquestra e não pode relaxar neste compromisso. Também precisamos de
apoio de toda a sociedade brasileira. Para mobilizar apoio financeiro
privado, precisamos de legislação tributária que estimule
doações".
O segundo
desafio é ir aonde o povo está. Isto significa destacar um
funcionário graduado de sua equipe para costurar as relações com a
comunidade, construindo novos públicos para a Orquestra. Construir
públicos novos significa contatar escolas, igrejas e organizações
comunitárias dentre os 12 milhões de habitantes na vasta periferia de
São Paulo, convidando estes grupos para os concertos na Sala São
Paulo como convidados da Orquestra e para organizar concertos da
Sinfônica na periferia. Ir onde o povo está ajudará a construir a
sustentação política para que a Orquestra reforce sua estabilidade.
Isso também reafirmará a humanidade comum desta grande e heterogênea
metrópole. A OSESP é uma realização institucional em uma magnífica
cidade sedenta por sucessos. Ela pode desempenhar um papel relevante na
luta de São Paulo para a civilização.
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