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Braudel
Papers - Nº 20 , 1998
1.
O jogo
Dinheiro, ganância, tecnologia é um novo vídeo-game sobre um
velho tema. Na época das monções de 1997, um tufão
irrompe no Mar da China Meridional, atacando os costumes
e artefatos da sociedade organizada, num raio de países
emergentes que vai da Tailândia, Malásia e Indonésia,
até mais ao norte, Hong Kong, Coréia do Sul e Japão.
Esse tufão não resulta simplesmente na clássica
destruição da terra pela natureza. É uma destruição
súbita e auto-infligida de sistemas financeiros e políticos, com
redemoinhos. Faz isso através de uma
complexa interação entre dinheiro, ganância e tecnologia, colocada em movimento pela incansável aposta
em ativos que inexoravelmente vão se acumulando à
procura de rendimentos mais altos.
Quando o tufão na Ásia apareceu no horizonte, o Bank
for International Settlements (BIS), o banco central dos
bancos centrais, afirmou que "o fluxo de capital
privado para os mercados emergentes excedeu amplamente
recordes anteriores, com a emissão de bônus
internacionais tendo desempenhado um papel central nesse processo. Esses desenvolvimentos surpreendentes foram o
resultado de forças econômicas fundamentais ou poderão
ser revertidos por essas mesmas forças no futuro? Uma
parte de uma resposta honesta é admitir que simplesmente
não sabemos. A rápida transformação tecnológica
obscurece nossa percepção do que é possível e
razoável".
Nosso vídeo game é bastante complexo. Testa a
tolerância das tecnologias existentes e nossa imaginação. O tufão disfarça uma invasão
estrangeira. Nosso estilo de vida é ameaçado. Cenários
sombrios e tempestuosos prevalecem, augurando resultados catastróficos. Os "maus" vencerão se alguém
não apertar os botões certos. Mas quem são os
"maus"? Devemos zapear os emissários do Fundo
Monetário Internacional (FMI), que demandam regras
rígidas para a ordem interna em troca de dinheiro novo?
Ou deveríamos zapear os banqueiros estrangeiros que
emprestam com tanta liberalidade e estupidez e agora, com
o apoio diplomático dos países ricos, exigem
honorários e juros mais altos para conceder maiores
prazos de pagamento para seus créditos? Ou deveríamos
zapear os executivos de empresas estrangeiras que viajam
para o falido paraíso dos valores asiáticos a fim de
comprar por preço baixo terras, prédios e empresas? Ou
deveríamos exterminar os engarrafamentos de trânsito de
Bangcoc e os faraônicos arranha-céus de Kuala Lampur
como se fossem pragas para a civilização? Deveríamos
zapear muçulmanos em motim, enfurecidos com o aumento
dos preços de comida, que queimam lojas e igrejas de
chineses em cidades da Indonésia? Deveríamos zapear as
hordas de imigrantes pobres - vindos de aldeias de
Bangladesh, Burma, Camboja, Indonésia e das Filipinas -despedidos, de um dia para
outro, de empregos em fábricas, cozinhas e construções em Cingapura,
Malásia, Indonésia, Coréia do Sul e Tailândia?
Deveríamos zapear a tempestade de notas promissórias
emitidas por companhias em vias de falência que conduz o
mercado de ações e os bancos da Coréia na direção de
remoinhos de dívidas ruins? Deveríamos zapear os
espertos do capitalismo de camaradagem, empresários
cujos negócios sujos com políticos apagaram décadas de
trabalho duro e afundaram seus países debaixo de ondas
de dívidas impagáveis? Quais são as verdades chocantes
que nosso raio laser deve zapear? Quem são os
"maus" e quem vai pagar o preço por suas ações? O jogo tem muitos alvos
móveis. É difícil
identificar os "maus", devido à confusão
sobre quem deve o quê para quem. Tanto os credores como
os devedores escondem suas posições. Quando a
Indonésia cessou pagamentos de sua dívida privada externa, de US$ 73
bilhões, depois que, em três meses,
sua moeda perdeu dois terços de seu valor em relação
ao dólar, os palpites sobre o montante das dívidas
indonésias com bancos coreanos, também eles devendo US$
66 bilhões em créditos de curto prazo, variavam de US$
2,5 bilhões a US$ 25 bilhões. Quem pode zapear a
ameaça perene do Erro Colossal? Nosso jogo exige discrição, engenhosidade e um agudo senso de
justiça.
Nosso vídeo game traz poucas novas
idéias, mas
coloca questões básicas. A questão central de nosso
tempo é de saber se nos precipitaremos numa ruptura com
o passado, o que representa uma descontinuidade com a
modernização de séculos recentes e ressuscita antigos
temores sobre uma praga de relapso. O medo desse relapso
conduz a uma mudança nas comunidades modernas de uma
economia política de direitos adquiridos para uma
economia política de sobrevivência. A mudança está
apenas se iniciando e só agora suas implicações
começam a aparecer. Nas próximas décadas, em muitos países, da China ao Peru, do Brasil ao
Egito, e da
Índia à Nigéria, e em cidades, de Nova Iorque à São
Paulo, de Budapeste à Bangcoc, de São Peterburgo à
Detroit, de Jakarta à Los Angeles, o principal desafio
da política econômica será a regeneração.
Em meio à turbulência financeira, o Brasil tateia
maneiras de fortalecer sua nova cultura de baixa
inflação e a continuar a modernizar suas instituições públicas. Desde o lançamento do Plano Real, na metade
de 1994, reduziu-se a inflação de 5.115%, nos 12 meses anteriores, para 4,7%, em todo o ano de 1997. O Brasil
tem feito progressos modestos, decentes e difíceis para
viabilizar seu federalismo fiscal, mercados financeiros e
contrato social. A rigidez de seus sistema político tem, porém, retardado esses
avanços. Estes esforços só
não impedirão que o chão ceda se o Brasil fracassar em
perseguí-los coerentemente, alimentando uma desilusão
que poderá pôr em risco sua estabilidade política e
levar o país de volta para o pessimismo e confusão das
suas décadas recentes de inflação crônica. Como
Harold James nota na sua nova história do sistema
monetário internacional do pós-guerra, "um
problema mais sério é mais facilmente resolvido se
todos os envolvidos estão convencidos de que eles
precisam agir. É mais provável que essa convicção
surja de uma grave crise".
Assim como a luta brasileira contra a inflação crônica, a crise asiática é um teste para as
instituições. Esse teste aproxima países asiáticos
que possuem enormes diferenças de renda, estrutura econômica, liberdade
política, políticas
governamentais e geografia. É difícil comparar a Indonésia, um arquipélago de 13.000 ilhas e 200
milhões de habitantes, com uma antiga história de
colonialismo e governo ditatorial, com ricas
cidades-estado como Hong Kong e Cingapura, um gigante
continental como a China e uma super-potência econômica
como o Japão, que foi considerado na Coréia e na
Malásia um modelo de industrialização conduzida pelo Estado. As diferenças entre esses países foram
escondidas por altos índices de crescimento econômico
no passado recente. Suas atuais dificuldades são
alimentadas pela incapacidade de suas instituições
lidarem com os riscos relacionados com um súbito
incremento na escala das transações financeiras. A
falência da Indonésia dramatiza esses riscos, caso que
gerou distúrbios civis numa escala jamais vista na
América Latina desde o Bogotazo de 1948, provocado pelo
assassinato do líder Liberal Jorge Eliécer Gaitán,
episódio chave no agravamento da violência endêmica na Colômbia. Além destas convulsões
políticas, aparece
uma outra questão embutida na crise asiática: dado seus
fardos de dívida estrangeira e doméstica que não foram pagas, quantos desses países poderão manter
instituições financeiras nacionais relacionadas com o
restante da economia mundial? As dívidas e quebras de
bancos são tão amplas que os governos podem enfrentar
escolhas desoladoras, tais como a que a Argentina teve
que fazer após suas crises bancária e de dívida
externa de 1980-82: ou empregar a inflação para apagar
as dívidas ou deixar as economias domésticas caírem em depressão.
No fim do século XX, a humanidade enfrenta uma luta para
vencer o risco do fracasso institucional na gestão de
problemas de escala. Estes problemas aparecem na
proliferação de ativos financeiros e fluxos de informação, assim como no tamanho de
empresas, cidades
e nações. Mudanças repentinas na escala da atividade
humana alimentam demandas institucionais para o uso dos
conhecimentos na formação, adaptação e gestão de
capital. O fracasso institucional, devido a pressões de escala, ameaça que retornemos a formas mais arcaicas de
civilização e mortalidade. Ao procurarem por saídas
mais humanas, muitos governos tentarão preservar uma
cooperação civilizada na gestão de sociedades complexas. Algumas sociedades vão manter e acelerar seu
desenvolvimento, domando níveis mais altos de
conhecimento e organização. Outras afundarão ainda
mais na doença, violência e confusão. O Brasil e os
países afetados pela crise na Ásia partilham desses riscos.
2.
Os ativos
O que é visto
hoje como uma crise asiática é meramente um distúrbio
superficial de um problema maior: a proliferação
implacável e descontrolada de ativos financeiros pelo
mundo inteiro. A maior escala e eficiência dos mercados
financeiros melhorou o nível de vida, intensificou as
trocas internacionais e criou uma vasta quantidade de
riqueza nova. Mas o dinheiro se tornou excessivamente
barato e as recompensas de risco muito baixas. A
velocidade e o sigilo de operações que visavam gerar
créditos alimentaram a desconfiança e perigosa falta de informação. A pressão adiada sobre credores e
devedores mudou expectativas, com as desvalorizações,
quebras de bolsas de valores e o surgimento de vítimas políticas. A quebra e o embaralhamento de valores de
ativos na Ásia ocorreram no auge da expansão financeira
global que tem se acelerado durante as décadas do pós-guerra, apesar de algumas breves
interrupções. Por
volta de 1995, nas economias centrais da Europa, América
do Norte e Japão ativos financeiros globais (bônus, ações, ativos bancários e reservas
oficiais) tinham
atingido US$ 73 trilhões, ou o equivalente a três vezes
o total do produto mundial. No início de 1995, o BIS
pesquisou os derivativos, o mais novo e quente dos jogos
nos mercados financeiros, e calculou que seu valor
aproximado era de mais de US$ 64 trilhões. O valor
combinado de derivativos e ativos financeiros
convencionais é hoje aproximadamente cinco vezes o
produto anual de bens e serviços do mundo.
A mágica do mercado tem seu aprendiz de feiticeiro: o
trader hiperativo. Esse é um novo tipo de herói nos
anais das finanças; transpira sem parar na cozinha do
diabo em meio a telas de computador aparentemente
infindáveis que transmitem as maravilhas da informação instantânea. Spreads infinitesimais passeiam entre
enormes e bruscos movimentos de ativos financeiros,
criando oportunidades de trocas rápidas onde não se
pode vacilar. Wall Street, depois de completar três anos
de ganhos de 29% em ações, centenas de bilhões de
dólares em aquisições de companhias e trilhões de
dólares em negócios com derivativos, em 1997 estava em festa. Na firma Goldman,
Sachs, 190 sócios levaram para
casa bônus de pelo menos US$ 4 milhões, com aqueles que
tiveram melhor desempenho e os principais executivos
tendo recebido até US$ 25 milhões, enquanto os 215
diretores-gerentes menos importantes receberam uma média
de US$ 1,5 milhão cada. Dante classificou a ganância
como uma forma de incontinência. Edward Gibbon, o grande
historiador do Império Romano, chamou-a de "uma
paixão insaciável e universal". Apesar da
ganância poder ser útil, ao estimular o risco e a inovação, o Livro dos Provérbios do Antigo Testamento
nos adverte: "aquele que tem ganância de ganho,
cria problemas em sua própria casa". O que pode ser
perigoso na ganânica é uma irresponsável
transferência de risco para a sociedade que subverte
sistemas políticos e distorce o preço do risco e da recompensa.
Até agora, a expansão financeira, animada pela oferta,
foi acompanhada nos países centrais de uma inflação
declinante e da consolidação fiscal, o que criou um
ambiente internacional estável. Por volta de 1994, a
institucionalização da poupança em seguradoras e
fundos mútuos nos países ricos tinha acumulado algo
como US$ 20 trilhões em ativos, dos quais apenas uma
pequena parcela foi para mercados emergentes com
rendimentos mais altos. Basta essa pequena fatia para
inundar as capacidades institucionais e gerenciais das
economias mais pobres.
Ataques especulativos podem surpreender e vencer em
diversas frentes, ao mesmo tempo que as armas de defesa
são poucas e normalmente usadas com sérias limitações. Investidores
institucionais, com seus
enormes fundos, estão bem posicionados para montar esses ataques, juntamente com outros
especuladores. Ao
"ficarem vendidos" em relação a moedas
fracas, depois do início da fuga de capitais, realizam
apostas ancoradas num valor que é cinco ou 10 vezes seu
capital exposto. Os alvos óbvios são países com moedas
sobre-valorizadas, pequena flexibilidade na taxa cambial
por motivos políticos ou econômicos, um fraco sistema
financeiro e fiscal, grandes déficits de conta corrente,
um significativo montante de dívida externa de curto
prazo e reservas internacionais limitadas. Levando-se em
conta a maior parte dessas características, o Brasil era
um alvo provável para ataques especulativos, tanto antes
como depois do início da crise asiática.
A defesa clássica do país atacado é o aperto pelo
banco central da oferta doméstica de dinheiro, com a
venda futura de dólares, elevação das taxas de juro
locais e o corte em gastos governamentais. O banco
central atacado precisa agir rapidamente para privar
especuladores do acesso a sua moeda elevando o custo em
juros de comprar moeda estrangeira, o que dificulta a desvalorização. Com a elevação das
apostas, a batalha
se torna mais intensa e complexa, conduzindo o banco
central para envolvimento ainda maior com mercados de derivativos, ao mesmo tempo que restringe a atividade
externa de bancos comerciais e aumenta o fardo da
economia real. Uma moeda pode ser atacada tanto no seu
próprio terreno como no mercado a termo. Se um mercado a
termo não existe, um novo derivativo, o NDF (nondeliverable forward), pode ser improvisado na forma
de contratos privados entre bancos e clientes realizados
fora das bolsas. Em Hong Kong e Cingapura derivativos
desse tipo foram negociados pesadamente, para fugir de
controles de bancos centrais. Especuladores de NDF
apostam no preço futuro em dólar da moeda atacada e
pagam suas apostas em dólares.
Em outubro de 1997, a bolsa de Hong Kong caiu, provocando
um pânico internacional que consumiu US$ 10 bilhões das
reservas brasileiras em uma semana. Numa reação bem sucedida, o Banco Central brasileiro decretou uma taxa
real de juros de 40%, a mais alta do mundo, e vendeu US$
20 bilhões no mercado futuro de cambio para defender o
real de outro ataque. Altas taxas de juros estorvaram a
demanda doméstica e atraíram uma torrente de dólares
para o Brasil. Em quatro meses, tanto as reservas como a
taxa de juros se aproximassem dos níveis anteriores à crise. Quando as reservas se aproximavam do novo recorde
de US$ 75 bilhões, uma manchete do jornal O Estado de S.
Paulo exclamava: "nunca tantos dólares entraram no
país". Esse dinheiro vem para o Brasil
principalmente em razão da enorme diferença entre as
taxas de juros internacionais e a brasileira. A
segurança que estes US$ 75 bilhões em reservas deveriam
garantir é contrabalançado pelo pagamento pelo governo
de US$ 43 bilhões em juros, da venda de dívida pública
interna para evitar que os enormes influxos de capital
estrangeiro inflacionem a oferta de dinheiro, e pelos
empréstimos de curto prazo ao Brasil de US$ 36 bilhões.
As dificuldades da Ásia serviram como um alerta
saudável para o resto do mundo, revertendo subitamente a
tendência de queda no preço do risco. De acordo com BIS, "o sistema financeiro mundial parece ter
mostrado maior elasticidade do que no início de 1995
durante a crise mexicana. O prêmio de risco (risk premia) da dívida em moeda estrangeira dos países
latino-americanos e da Europa oriental diminuiu em
relação ao pico que tinha atingido, no final de outubro, e o contágio de suas moedas foi
detido... Um
grande número de bancos de investimento e comerciais
parece ter sido surpreendido pela virulência da
turbulência financeira, que anunciava perdas pesadas em
seus negócios por conta própria", conduzindo a uma
queda de 30% no mercado internacional de lançamento de
bônus no último trimestre de 1997 e a níveis recordes
de repagamentos. Mesmo assim, é improvável que um recuo
temporário e localizado diante do risco, provocado por
eventos regionais nos países em desenvolvimento,
imobilize por muito tempo o crescimento, aprofundamento,
especialização e diversificação da atividade financeira.
Distorções e avaliações exageradas sempre são ajustadas. O medo residual e a instabilidade em mercados
financeiros são necessários para conter o comportamento
de manada, que agrava a reação exagerada e o pânico e
faz com que episódios como a crise asiática se tornem
ainda mais perigosos. Em tempos de crise financeira, a
ação ou omissão governamental é, muitas vezes, guiada
pelo medo do desconhecido. Os ajustes por vezes evocam as
palavras de Joseph Schumpeter que, durante a Grande
Depressão dos anos 30, escreveu que cálculos baseados
em ativos inflados eram "trocados pelas torrentes de
um processo de reajuste correspondente em magnitude e
extensão à revolução industrial dos 30 anos anteriores. As pessoas, na sua maior
parte, continuavam
firmes sobre a terra. Mas a terra, ela mesma, estava
prestes a ceder". Ao explicar a crise asiática o
presidente do Federal Reserve americano, Alan Greenspan,
aludiu à teoria de Schumpeter sobre a "destruição
criativa", como "um importante elemento de
renovação numa economia de mercado dinâmica". Uma
economia desse tipo necessitaria também de algo que
fazia falta aos países asiáticos, "um estatuto
eficiente para falências que pudesse auxiliá-los nesse processo, inclusive nos casos de problemas entre
fronteiras". Greenspan acrescentou: "num
ambiente em que sistemas financeiros são fracos, regimes
de supervisão frouxos e garantias de proteção ao
depositante ou credor vagas, ocorreram falências em
diversos países, tendo elas assumido proporções de
crise na Indonésia", o que alimentou -um medo
visceral entranhado. As mudanças de taxa de câmbio não
parecem ser resultado da acumulação de novos
conhecimentos ou da deterioração dos fundamentos econômicos. Derivam sim de seu
oposto: o aparecimento de
incertezas que destróem entendimentos anteriores sobre a
maneira como o mundo funciona". O perigo mais
evidente é representado pela proliferação de ativos
financeiros sem precedentes em velocidade, escopo e escala. Eis os principais elementos dessa
expansão:
1. Reservas. O indicador mais simples do
crescimento líquido é o valor das reservas em ouro e
moeda forte mantidas pelos bancos centrais. A era do
pós-guerra começou com uma "carência de
dólar", a qual o Plano Marshall e os déficits na
balança de pagamentos dos EUA puseram fim. As reservas dobraram, entre 1951 e 70, durante a "Idade de
Ouro" do capitalismo, quando a economia mundial cresceu, num nível anual de longo prazo não superado
até o momento, de 5%. A partir daí, o crescimento
econômico desacelerou para 3% anuais, mas as reservas multiplicaram-se em torno de 12
vezes. Desde 1970,
países em desenvolvimento lideraram esse crescimento,
multiplicando suas reservas 31 vezes, tendo no seu auge,
durante os anos 90, dobrado-as, chegando a exceder os
níveis dos países ricos pela primeira vez em 1997.
Metade dos US$ 1,2 trilhões em fluxos líquidos de
capital para mercados emergentes em 1990-96 foi destinado
a reservas oficiais, 70% delas na Ásia e 37% na América Latina. Como nos anos
vinte, muitos bancos centrais
ofereceram juros altos para moedas sobrevalorizadas, a
fim de atrair e manter reservas. Créditos estrangeiros
de curto prazo e de Eurobonds aumentaram as reservas
brasileiras de moeda forte de US$ 10 bilhões em 1990
para US$ 63 bilhões às vésperas da crise asiática, a
sexta maior reserva do mundo, ao mesmo tempo que a
sedução de altas taxas de juros venceu o temor de
déficits fiscais e de conta corrente.
2. Negócios de câmbio. A
movimentação diária em mercados internacionais de
câmbio subiu de cerca de US$ 200 bilhões, em meados da
década de oitenta, para US$ 1,2 trilhão, ou 20 vezes o
valor do comércio mundial em bens e serviços. Atraídos
pelo crescente valor do dólar em relação ao marco e
depois o iene, investidores verteram quase US$ 1 trilhão
em fluxos de capital líquido para os EUA, durante 1995 e
96, ou o equivalente entre quatro e cinco vezes os
níveis do início dos anos noventa. Muitos traders e
fundos hedge pegaram ienes emprestados por um baixo preço, e depois os venderam por dólares para comprar
títulos do tesouro americano e financiar outros investimentos. Alguns desses dólares foram destinados a
países em desenvolvimento, cujos bancos centrais então
usaram os dólares para comprar dívida do tesouro americano. É também cada vez mais comum o uso de
acordos de recompra por parte dos mercados internacionais
de dinheiro, a fim de financiar operações interbancárias, com papéis negociáveis do Tesouro
norte-americano desempenhando o papel de principal
garantia colateral. Bancos centrais adquiriram, em 1996,
dois quintos dos US$ 294 bilhões de compra líquidas
estrangeiras de bônus do Tesouro norte-americano. Em
1996, metade do investimento de bancos centrais em
dívida do governo norte-americano provinha de países em
desenvolvimento que procuravam administrar suas taxas de
câmbio diante de enormes e voláteis fluxos de capital.
3. Empréstimos bancários
internacionais.
Empréstimos bancários internacionais, em termos
brutos, quadriplicaram desde
1992, enquanto o lançamento internacional de bônus e
notas por instituições financeiras foram multiplicados
em oito vezes. Ao analisar a crise asiática, em novembro
de 1997, o BIS considerou que -primeiro e mais importante- era "a questão de porquê os sinais de
crescentes desequilíbrios econômicos e financeiros
foram ignorados por tanto tempo pelo mercado... Em
contraste com a crise mexicana de 1995, que se deveu, em
grande parte, à dívida do setor público, o recente
abalo de moedas do sudeste asiático envolveu um vasto
espectro de atores e instrumentos", fazendo com que
"seja cada vez mais difícil para a assistência
financeira oficial insular credores e devedores das
conseqüências adversas de equivocadas decisões de
investimento". O pânico asiático ao se espalhar,
fez com que os US$ 93 bilhões em fluxos líquidos de
capital investidos em 1996 nos países mais afetados - Indonésia,
Filipinas, Malásia, Coréia e Tailândia -
se transformassem em US$ 12 bilhões de capital líquido
saídos deles, o que removeu todas as chances de
recuperação ordenada.
4. Bônus. A compra estrangeira líquida
de bônus de longo prazo do governo e de companhias
americanas atingiu um novo recorde em 1996, 70% a mais do
que no anterior período áureo de 1995. Segundo o FMI,
"os EUA estão desempenhando o papel de um
intermediário global: atrai capital internacional ao
prover instrumentos líquidos relativamente seguros (títulos da dívida pública e de empresas americanas de
alto padrão), com retorno financeiro relativamente alto,
e então os reinveste, através de mercados internacionais, em veículos menos
líquidos, para ter um
retorno maior". Em proporção ao PIB doméstico,
transações entre fronteiras em bônus e ações feitas
por investidores americanos cresceram de 4%, em 1975,
para 35%, em 1985, atingindo 164%, em 1996, enquanto a
movimentação alemã aumentou de 5% para 200% no mesmo período. De acordo com o
BIS, o financiamento internacional, através de euronotes e bônus, cresceu
mais do que os mercados domésticos: "Em suas
tentativas de melhorar o retorno financeiro, investidores
internacionais mostraram mais uma vez disposição para
descer no espectro do crédito e explorar novos
nichos", produzindo "o rápido incremento no
lançamento de dívida de mais baixa confiabilidade que
... agora está sendo seguido por um crescimento no
número de inadimplências". Diferente dos empréstimos, os bônus "não possuem nenhum
mecanismo para chegar a um acordo de
renegociação", notou John Williamson, membro do
Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial.
"Ironicamente, foi esta dificuldade que fez com que
os bônus se tornassem populares entre os credores nos
anos oitenta. Enquanto era possível para devedores que
não estivessem sobre tanta pressão manter o pagamento
das taxas de juro dos bônus, quando esses eram uma
fração pequena de sua dívida total, será impossível
fazer o mesmo se dificuldades surgirem num país com uma
grande proporção de sua dívida na forma de bônus.
Estes credores estão vivendo numa espécie de paraíso
dos tolos".
5. Dívidas de curto prazo. A mais
perigosa proliferação de ativos está na dívida de
curto prazo. Empréstimos estrangeiros, tanto para a
Ásia como para a América Latina, têm sido direcionado
para diminuir os prazos de vencimentos e aumentar os
créditos para companhias não-financeiras, ao invés de
procurarem bancos e governos. Isso tem ocorrido
especialmente na Indonésia, Coréia, Tailândia, Brasil, México, Chile e Argentina, com empréstimos de curto
prazo (vencimentos de menos de um ano), sendo ainda bem
mais comuns na Ásia do que na América Latina. Por exemplo, a dívida da Tailândia com bancos estrangeiros
pulou de US$ 29 bilhões em 1993 para US$ 69 bilhões em
meados de 1997, 70% dela sendo de curto prazo.
A confusão e o desespero em relação às dividas
externas de curto prazo que aparecem desde meados de
1997, na Coréia, Indonésia e Tailândia lembram o
atoleiro de empréstimos para a Europa central e oriental
nos anos vinte, que surgiram depois que banqueiros
americanos despejaram dinheiro na Alemanha para financiar
a reciclagem das dívidas e reparações de guerra. O
empréstimo Dawes de US$ 200 milhões, realizado em 1924,
iniciou uma enchente de juros altos, empréstimos de
curto prazo, numa escala que não foi entendida até o
fundo da Grande Depressão. O BIS apontou que US$ 10
bilhões da dívida de curto prazo estava então
flutuando pelo mundo, com US$ 5 bilhões deles
localizados na Europa central, o que representa
proporcionalmente uma fatia bem maior do total de ativos
internacionais do que em outras situações, como o da
dívida de curto prazo dos países em desenvolvimento
descoberta na época da moratória mexicana de 1982, US$
212 bilhões, ou o montante financeiro da atual crise asiática. Funcionários do Tesouro americano de início
informaram ao presidente Herbert Hoover (1929 - 33) que
os bancos americanos tinham realizado apenas US$ 500
milhões desses empréstimos de curto prazo. Mas Hoover,
ao checar essa informação, descobriu que o valor real -provavelmente excedia 1,7
bilhões-, o que era o
suficiente para desestabilizar alguns grandes bancos americanos. Culpou por essa situação "o fato de
terem vigorado nos EUA, de meados de 1927 até meados de
1929, taxas de juro artificialmente baixas e crédito expandido, devido à insistência de banqueiros
europeus.
Alguns de nossos banqueiros tinham cedido, devido à pura ganância, aos 6% ou 7% de juros que os bancos ofereciam
na área de concentração do pânico europeu".
Também os banqueiros londrinos haviam tomado emprestado
francos franceses a 2% e reemprestado os fundos,
transformados em reichmarks, para a indústria e governos
locais alemães em empréstimos com juros de 8%,
totalizando US$ 3,6 bilhões, mais de cinco vezes a
reserva de ouro do Banco da Inglaterra.
Como na Coréia e Indonésia de hoje, a metade da dívida
externa alemã em 1931 era de empréstimos de curto prazo. O colapso do sistema financeiro alemão espalhou
pânico por toda Europa do leste, criando uma enorme
pressão sobre o padrão ouro e os bancos britânicos. Em
julho de 1931, o Reino Unido perdeu 19% de suas reservas
de ouro. Saques de depósitos estrangeiros baseados em
Londres continuaram a crescer, até que o governo
britânico decidir abandonar o padrão ouro em setembro.
Esse acontecimento abalou o mundo e transferiu a pressão
para os EUA. Enquanto as atuais condições políticas
diferem das da Europa dos anos vinte, o papel que
empréstimos de curto prazo tiveram em aprofundar a depressão, alimenta preocupação sobre o impacto que
esse tipo de empréstimos pode ter hoje em dia. Como
advertiu Greenspan: "Empréstimos de curto prazo
entre bancos, especialmente entre fronteiras, podem se
revelar o calcanhar de Aquiles de um sistema financeiro
internacional que é sujeito a grandes variações na
confiança financeira". O Financial Times foi mais longe: "Se há alguma lição a ser tirada da
experiência das duas últimas décadas, é que os bancos
são veículos desastrosos para fluxos de capital de
grande escala entre fronteiras. O dinheiro de curto prazo
que eles provêem é inadequado para as finanças ou os
investimento de longo prazo; a expectativa de que
apareça ajuda fornecida por suas autoridades domésticas
faz com que eles estejam dispostos a tomar riscos excessivos; e suas tentativas de transferir seu dinheiro
impõem uma pressão intolerável nas taxas de câmbio
dos importadores de capital. Seria bem melhor se a
intermediação internacional fosse baseada, como num
século atrás, no financiamento de longo prazo;
investimento direto, equiparação de portfolio e bônus
de longo prazo".
6. Mercado imobiliário. A especulação
no mercado imobiliário inflacionou os valores de ativos
em países que já contavam com moedas sobrevalorizadas,
fizeram empréstimos para investimentos em bens não negociáveis, contribuindo para a formação de bolhas e
crises bancárias na Argentina, Chile, Malásia, Noruega, Suécia, EUA, Reino Unido e
Japão. O mercado
imobiliário representa na maior parte dos países o
grosso das garantias bancárias, com empréstimos
imobiliários atingindo, num dado momento, 37% de todos
os empréstimos na Malásia e 42% nos EUA, o que
representa três ou quatro vezes o capital bancário. Nos EUA, porém, isto foi antes do colapso dos preços
imobiliários, há uma década atrás, ter feito
desaparecer boa parte do capital do sistema bancário.
Instáveis bancos japoneses estão agora encalhados com
terrenos que ostentam placas de vendas e apartamentos e
escritórios semi-construídos que são invendáveis no
mercado deprimido. Esses terrenos, apartamentos e
escritórios foram tomados como garantias para
empréstimos imobiliários não pagos. Investidores
japoneses que durante a década de oitenta compraram nos
EUA apartamentos luxuosos, bancos, torres de escritórios
e campos de golfe têm vendido, a partir dos meados dos
anos noventa, de US$ 3 a US$ 5 bilhões dessas
propriedades anualmente. O marco do boom imobiliário
malásio são as Petronas Towers, de 88 andares,
consideradas os edifícios mais altos do mundo, uma
assombrosa criação de uma arquitetura feita com cromo e
placas de vidro. Elas comandaram uma farra de
construções em Kuala Lampur que deveria aumentar o
espaço em escritórios em 50%, o espaço para revenda em
90%, incluindo 26 shopping centers, e o número de
condomínios em 80%. Tudo isso, numa cidade de pouco
menos de 1,5 milhão de habitantes. O Brasil escapou de
uma bolha imobiliária no estilo asiático devido às
suas altas taxas de juro e poucos empréstimos bancários
para o setor privado, resultado tanto da inflação
crônica como dos rigores da estabilização do Plano
Real.
7. Derivativos. "Um derivativo é
uma aposta, não um investimento - uma aposta na direção, dimensão, duração e velocidade das
mudanças do valor de outro instrumento financeiro (principalmente
moedas, taxas de juros e preços de ações)", escreve Martin Mayer, em The Bankers: The
Next Generation (1997). Os valores aproximados de
contratos de derivativos comerciados cresceram na última
década num nível de 32%. No entanto, a fatia do mercado
de negócios baseados em troca foi superado por vendas
diretas entre bancos e clientes fora das bolsas (OTC's:
over the counter) que cresceu ao nível anual de 45%. O
FMI explicou essa compra e venda de risco em termos de
"uma crescente compreensão por parte de
instituições financeiras e não-financeiras das
possibilidades que esses instrumentos oferecem para
reempacotar e fazer reengenharia de riscos cíclicos e de balancete, junto com as possibilidades que avanços
tecnológicos, analíticos e numéricos criam em
estabelecer preços e avaliar os riscos de contratos de
derivativos". Esse raciocínio dá conta de
facilidades técnicas, mas ignora questões básicas
relacionadas com a natureza mutável do crédito e do risco. A crise
asiática, ao disparar desvalorizações
maciças de moedas e perdas no mercado de ações, rompeu
com as premissas matemáticas para a realização de
cálculos de riscos potenciais. Ao escrever sobre o papel
de derivativos na crise asiática, Jan Kregel, da
Universidade de Bolonha, argumenta que "o papel da
maior parte dos pacotes de derivativos é precisamente o
de encobrir o risco real envolvido com investimentos e
aumentar a dificuldade de precisar o retorno final em
relação aos fundos aplicados". Nos EUA, no final
de 1996, só os oito principais bancos geravam 94% (US$
19 trilhões) de todos os OTCs pendentes, dando algo como
um quinto dos lucros totais de 1993 dos maiores
negociadores americanos nesses instrumentos.
O perigo com os derivativos é que pequenas quantidades
de dinheiro podem ser usados para ancorar apostas
significativas em taxas de juro, moedas, mercadorias e participações, expondo os jogadores a ganhos e perdas
que podem multiplicar significativamente sua aposta em
períodos de volatilidade. Essas apostas criam uma aura
de complexidade revestida pelo jargão da alta tecnologia, que usa cálculos feitos por
computadores,
baseados em matemática avançada, que são muitas vezes
preparadas especialmente para cada cliente, dando ao
banco em cada negócio uma grande vantagem em termos de informação. Contadores estabeleceram quatro maneiras
diferentes de avaliar swaps, que resultam também em
quatro valores diferentes. Alguns dos "consumidores
finais" que supostamente teriam seus riscos
controlados por esses instrumentos tiveram cada um deles
perdas de mais de um bilhão de dólares. A lista inclui
a Showa Shell no Japão, o Banco Negara na Malásia, o
Barings no Reino Unido, a Metallgesellschaft na Alemanha,
o Condado de Orange na Califórnia, o Sumitomo e a filial
nova iorquina do banco japonês Daiwa.
8. Investimento estrangeiro direto.
Desde meados dos anos oitenta, fluxos anuais de
investimento estrangeiro direto (IED), a forma mais
estável e produtiva de criação de ativos, multiplicaram-se quatro
vezes, de US$ 77 bilhões para
UD$ 349 bilhões em 1996. O total de influxos de IED tem
dobrado em todo o mundo desde 1991-92. Enquanto que o
comércio de serviços é mais restrito que o comércio
de bens, o fato dos serviços serem o maior setor na
economia mundial tem permitido que eles gerem mais da
metade dos estoques e praticamente dois terços dos
fluxos de IED. Tanto o comércio como o investimento
estrangeiro estão concentrados em poucos países. O
World Investment Report 1996 da UNCTAD mostra que os 11
maiores países receptores (10 membros da OCDE mais a
China) absorveram dois terços de todo o fluxo de IED e
geraram 78% de todo o fluxo em 1995, enquanto os 100
países mais pobres receberam menos de 1%. A tendência
é ainda de maior concentração. Praticamente 90% do
crescimento de fluxos de IED em 1995 foi para países desenvolvidos, com sua fatia aumentando de 59% em 1994
para 65% em 1995, o que excede em muito sua
participação na produção mundial. O grosso do
crescimento de IED entre países desenvolvidos está em
fusões e aquisições (M&A em inglês), muitas vezes
envolvendo investimento em nova capacidade produtiva.
9. Mercado de ações. Até o tufão
atingir a Ásia, o mercado de ações brasileiro, a maior
parte dele correspondendo a ações não votantes em
companhias estatais, cresceu 70% nos primeiros oito meses
de 1997. Para todo o ano de 1997, mercados financeiros
emergentes da Ásia perderam 56% de seu valor em dólar e
o Japão perdeu 30%, apesar das ações de Wall Street
terem ganho 31% naquele ano, as bolsas européias 24% e
as ações brasileiras e mexicanas, apesar de perdas no
final do ano, terem crescido respectivamente 35% e 51%.
Por toda a Ásia, perdas se concentraram no último
trimestre de 1997, quando mercados financeiros em Bangcoc, Jacarta, Kuala Lampur e Seul caíram entre 29% e
31%. Companhias afundaram diante de enormes cargas de dívida, a maior parte delas de curto prazo em dólares
ou ienes.
Mercados emergentes estavam na crista da onda durante o
boom de Wall Street. Mas agora depois de sete anos de
firme crescimento e baixa inflação, os EUA estão tendo
uma crescente consciência do que é possível e razoável. No seu relatório de 1997 sobre a economia
americana, a OCDE (Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico) suspeitou que havia "um
crescente apetite em favor do risco por parte dos
investidores e instituições financeiras", o que
fez eco às advertências de Greenspan sobre a
"exuberância irracional" do mercado financeiro, alimentada por uma das maiores altas na
história. Desde 1982 preços de ações multiplicaram-se
dez vezes num nível anual combinado de 16,5%, que é
excedido apenas pela velocidade de aumentos anuais de
29%, em 1923-29, e em duração pelo crescimento anual de
10,5%, de 1942 à 1966.
O crescente apetite por risco também podia ser
constatado nas diferenças declinantes de rendimentos
entre a dívida do Tesouro americano e os bônus dos
mercados emergentes, que caiu novamente no começo de
1997, mesmo depois que supervisores de bancos alertaram
sobre os excessivamente arriscados empréstimos por
grupos de bancos. A OCDE observou que a experiência
histórica mostra que "uma crescente disposição
cíclica de suportar risco é um marco de uma expansão
que se aproxima de seu fim'.
Nos EUA, fundos mútuos agora gerenciam US$ 5 trilhões,
refletindo valores mais altos nas bolsas, o que contrasta
com os apenas US$ 62 bilhões em 1980 e US$ 602 bilhões
em 1990 que controlavam. Entre 1990 e 97, o número de
fundos mútuos multiplicou de 361 para 6.500 e as contas
individuais cresceram de 11 milhões para 151 milhões.
Os US$ 5 trilhões em fundos mútuos equivalem a três
quintos do Produto Interno Bruto (PIB), ou mais ativos
líquidos que aqueles nas mãos dos bancos, fundos de
pensão ou companhias de seguro. Acredita-se que mais da
metade dos 96 milhões de lares americanas possuem ações, ou diretamente ou através de fundos
mútuos, o
que é o dobro em relação ao início da década de oitenta. Foi isto inclusive que permitiu que o valor
líquido de todos os lares mais que quadruplicasse desde
1985.
O tufão asiático ressuscitou algumas palavras solenes e
urgentes de advertência. "Passamos do estágio de
negação", avisou Alfred Ho, diretor associado da
Ivesco Asia em Hong Kong depois que os preços das moedas
e dos mercados de valores asiáticos, com poucas exceções, sofreu um colapso no último trimestre de
1997. "Estamos na fase de falências - e sentenças judiciais. Quando a moeda se movimenta a 10% ao
dia, os
riscos de uma companhia crescem 10% ao dia. Nesses
níveis de taxas de juro e câmbio, todo mundo acaba falindo. Nenhum negócio legítimo pode funcionar".
Palavras como essas já foram pronunciadas muitas vezes
antes. Ao escrever em 1934 The Great Depression, o
economista britânico Lionel Robbins advertiu:
"Fugimos do expurgo agudo. Preferimos a doença vagarosa. Em toda
parte, os esforços de bancos centrais
e governos no mercado de dinheiro, no mercado de
mercadorias e no amplo campo de finanças de companhias e
do endividamento público, têm sido direcionados para
sustentar más posições de negócios".
Seis décadas mais tarde, ao presenciar a
intensificação da crise asiática nas últimas semanas
de 1997, Greenspan insistiu que "se as companhias
devem correr riscos de arcarem com calotes em suas dívidas, investidores privados deveriam arcar com suas
perdas, e políticas governamentais deveriam ser
direcionadas para o estabelecimento dos fundamentos
macroeconômicos e estruturais para uma expansão renovada; possibilitando o aparecimento de novas
oportunidades de crescimento. De forma similar, ao prover
qualquer assistência financeira, precisamos estar
atentos para a vantagem de minimizar a impressão que
autoridades internacionais estão prontas a garantir as
fraquezas externas de governos soberanos ou negócios
domésticos falidos. Fazer outra coisa poderia conduzir a
investimentos distorcidos, e em última instância, à
desestabilização do sistema financeiro mundial".
De tempos em tempos, em muitas nações, duas
complicações impediram a obediência desses sensatos princípios.
Primeiro, instituições financeiras e seus
reguladores públicos nunca aprenderam a lidar
sistematicamente com o problema da aposta exagerada no
metabolismo de todos os mercados. Segundo,
considerações políticas entram no caminho e parecem
direcionar a maior parte das decisões. Considerações
políticas resultaram em grandes operações de caução
nos últimos anos em muitos países. Hoje em dia, mais
uma vez, a lógica política e econômica correm o risco
de colidir.
2.
Os ativos
A modernização no Brasil e na Coréia está sendo
ameaçada por um mau uso de recursos financeiros, que
chamaremos de transferências econômicas desastradas.
Estes problemas financeiros são sintomas superficiais de
dificuldades institucionais mais profundas, com elementos
comuns atingindo países separados por distâncias
culturais e geográficas enormes. Dificuldades
institucionais comuns juntam, na mesma encruzilhada de
crise e tempo, uma nação continental relativamente auto-suficiente de 170 milhões de
pessoas, que cobre
metade da massa terrestre da América do Sul, com um
antigo "reino eremita" do leste da Ásia que
desde a Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coréia
emergiu do isolamento e da submissão colonial para se
tornar a 11a. economia mundial.
O peculiar regionalismo brasileiro criou uma das
federações mais descentralizadas do mundo, onde
governadores estaduais abocanham fatias de poder sem
responsabilidade na política nacional, no mesmo estilo
das chaebols coreanas (uma adaptação coreana da palavra
japonesa zaibatsu, que significa conglomerado) na sua
relação com o poder econômico. Em ambos os países o
setor privado era dominado por firmas familiares, que
receberam enormes transferências governamentais. Em
1983, na pior fase da crise da dívida latino-americana,
o Banco Mundial afirmou que o Brasil era "uma
economia de transferência distinta das economias de
mercado e de planejamento centralizado". Em 1982,
transferências para indivíduos e empresas, incluindo
empresas estatais e o custo de subsídios financeiros,
totalizaram 17% do PIB. Apenas 16% dos portfolios de
empréstimos do Banco Central e do Banco do Brasil
traziam taxas de juros positivos, enquanto o passivo
dessas instituições eram representadas principalmente
por dívidas com altas taxas de juro, que absorviam 78%
de seus recursos. Durante décadas, a Coréia despejou
dinheiro em companhias privadas enquanto governos
militares conduziam as chaebols, que eram empresas
controladas por famílias, para áreas de atividade
estratégicas --estaleiros, máquinas de fabricação, aço, química,
semi-condutores, automóveis e construção-- e então as salvavam de dificuldades
financeiras. Foram, com isso, recompensados pela enorme
expansão da exportação de manufaturados. Ao mesmo
tempo que o apoio governamental às chaebols pode ter
declinado recentemente, já que estas empresas se
tornaram mais poderosas, tendo acesso mais direto a
empréstimos privados, estes créditos e proteções
corporificam transferências maciças de recursos da
população para as empresas, que nas últimas décadas
não têm conseguido recuperar seus custos de capital. As
cinco principais chaebols absorviam 15% de todo o
crédito bancário em 1997. O Instituto de
Desenvolvimento da Coréia calculou, no fim de 1997, que
as dívidas do setor privado, externas e domésticas,
incluindo perdas em operação e negócios estrangeiros,
eram de US$ 650 bilhões. De acordo com o McKinsey Global
Institute, "enquanto companhias coreanas verificavam
que tinham lucros com base em sua contabilidade, elas
estavam destruindo valor, já que os lucros gerados eram
menores do que o custo de financiar os investimentos de
capital (i. e., companhias coreanas sofriam de uma
produtividade de capital extremamente baixa)".
Em muitos países, as economias de transferência estão
afundando diante da pressão dos fardos financeiros,
conflitos políticos e a competição internacional.
Transferências fiscais de grande escala são comuns em
todas as economias modernas. Mas essas transferência se
tornam desastradas, funcionando como armas de auto-destruição, quando crescem para rivalizar com os
mecanismos do mercado. Desenvolvem uma vida própria, com
sua escala não podendo mais ser controlada sem que
provoque danos ou destrua importantes nichos da comunidade. O Brasil e a Coréia não são os únicos
países que fazem transferências desastradas,
alimentadas por incentivos perversos, mas ambos têm
levado essas distorções para âmbitos fora do comum.
A história da Coréia como um Estado unificado remonta
há 1.200 anos, sua independência tendo sido quebrada
apenas durante curtos períodos de conquistas por parte
dos mongóis no século XIII e do Japão no século XX.
País intocado por guerras em grande escala, o Brasil é
uma criação mais recente. Obra do capitalismo mercantil
europeu, tinha sua economia baseada em fazendas
agrícolas e em indústrias extrativas, enquanto sua
cultura foi moldada pela escravidão e a imigração européia. O mundo flutuante da inflação brasileira foi
movido por uma fantasia de expansão sem limites,
peculiar às sociedades de fronteira do hemisfério
ocidental. Os retornos econômicos proporcionados ao
trabalho continuaram baixos devido à uma fraca
organização política e econômica sobre um vasto
território nacional e ao pequeno investimentos em
infraestrutura e capital humano. Mesmo assim, a promessa
da fronteira se manteve vibrante diante da cornucópia
brasileira de recursos naturais e de sua experiência
como a economia de crescimento mais rápido no mundo dos
últimos 120 anos. O Brasil é uma sociedade cosmopolita
enquanto a Coréia, apesar de seu espetacular
desenvolvimento recente, luta contra imbricados traços
culturais de xenofobia, desenvolvidos como resposta a
incursões periódicas de civilizações vizinhas mais
poderosas. O medo da dominação estrangeira tem criado a
resistência coreana ao investimento estrangeiro e à
compra de terra por estrangeiros. Persistem memórias das
apreensões de terras por japoneses quando a Coréia foi
colônia do Japão (1910-45), período durante o qual
agricultores coreanos foram forçados a deixar suas
terras. Apenas agora proibições para que estrangeiros
sejam proprietários de terra, oriundas de uma lei de
1948, estão sendo relaxadas, já que em meio a provisão
de US$ 58 bilhões por parte do pacote de socorro do FMI
do final de 1997, também obrigou-se a Coréia a abrir
sua economia para o investimento estrangeiro.
A experiência brasileira não conhece nada similar à
relação de amor e ódio entre Coréia e Japão. A
interface entre esses dois povos vêm de uma mistura de
história antiga e lenda. O sul do Japão provavelmente
foi povoado na Idade da Pedra por migrações vindas da Coréia. Até o século
XV, a Coréia exportava bens
avançados para o Japão (cerâmica, linha de algodão,
têxteis) em troca de matéria prima (cobre e enxofre) em
meio a um tumulto de invasões militares e uma pirataria endêmica. Park Chung
Hee, o ditador militar da Coréia
(1961-79), foi treinado em escolas militares japonesas. O
impulso que forneceu para as indústrias pesada e
química, mobilizando e financiando as chaebols para
industrializar a Coréia, se inspirou no programa similar
levado a cabo pelos regimes militares japoneses da
década de trinta. Nas décadas do pós-guerra a
modernização da economia coreana se tornou dependente
em empréstimos e bens de capital japoneses.
"Estamos agora assistindo a uma mudança de
geração", afirmou o professor Woo Tack Kim,
professor visitante na Universidade de São Paulo.
"Os velhos políticos, burocratas e militares,
educados em escolas coloniais japonesas, estão indo embora. Jovens, com uma educação de estilo americana,
estão substituindo-os. Até recentemente, burocratas
seniores coreanos não faziam nada para tentar resolver a
bagunça que é nosso sistema financeiro, já que eles
imitavam os burocratas japoneses, que também não faziam
nada para resolver sua bagunça financeira. Mas uma coisa
que a crise asiática talvez prove é que o modelo
japonês não serve mais para nós".
Apesar da instabilidade política das últimas décadas,
o Brasil e a Coréia têm desenvolvido fortes ambições
internacionais e uma vocação para a democracia. Em
ambos os países, o clamor popular por eleições livres
pôs fim a governos militares na metade dos anos oitenta,
apesar de no Brasil a democratização ter sido planejada
e executada por seus governos militares durante 10 anos.
Ambos os países lutam agora para emergir dos modelos
culturais e econômicos de desenvolvimento industrial
conduzido pelo Estado, que floresceram sob governos
militares anti-comunistas. Esses modelos estatistas, que
produziam altas taxas de crescimento, fazendo com que
cidadãos dos dois países passassem a acreditar que isso
seria algo natural, gozavam de mais prestígio nas
décadas de sessenta e setenta do que hoje em dia.
No Brasil e na Coréia bancos faziam parte do sistema de
apoio para indústrias que eram protegidos da
competição internacional. Ambos os países realizaram
tentativas de liberalização financeira nos últimos
anos, com o Brasil tendo avançado muito mais. As duas
experiências demonstram como é difícil promover a
liberação de mercados de crédito sem também realizar
a liberação de mercados de bens. Bancos comerciais na
Coréia foram privatizados em 1957, e renacionalizados
pelo presidente Park em 1961 e então reprivatizados no
início dos anos oitenta, com o governo tendo mantido,
porém, o controle da indicação de todos os presidentes
de bancos até 1993. O tipo, direção e taxas de
empréstimos bancários seguiram o estilo japonês de
orientação informal por parte do governo, que conduziu
empréstimos para grandes companhias, enquanto privava
poupadores individuais de crédito para hipotecas de
casas e empréstimos pessoais. O resultado desse modelo
é que os bancos tiveram pouca oportunidade para ganhar
experiência na avaliação de crédito. A
liberalização desse sistema se processou pausadamente
nos anos oitenta e início dos noventa. Enquanto que, em
meados da década de noventa, o movimento da bolsa de
valores da Coréia era o sexto maior do mundo, quando a
moeda local e a ações quebraram no final de 1997,
estrangeiros podiam comprar apenas 15% das ações de
companhias coreanas. No Brasil, os bancos governamentais
geram o grosso dos empréstimos. No entanto, apesar do
domínio do mercado de crédito por enormes bancos
públicos e o desperdício e desorganização de
operações de salvamento que despendem bilhões de
dólares, também faz parte do sistema bancário
brasileiro uma variedade maior de instituições.
Encontram-se lado a lado grandes e lucrativos bancos
privados, como o Bradesco e Itaú, com uma rede nacional
de agências; bancos de investimento e bancos regionais e
comerciais de médio porte, além de bancos estaduais que
servem para fins políticos e são, de tempos em tempos,
salvos da falência pelo Banco Central. A liberalização
financeira no Brasil se deu junto com a liberalização
comercial. A abertura do mercado comercial externo no
final da década de oitenta, e de mercados de capital
locais para investimento de portfolio estrangeiro, foi
seguida pela liberalização da importação de bens no
início dos anos noventa. Durante a crise bancária de
meados dos anos noventa, permitiu-se que bancos
estrangeiros comprassem bancos brasileiros para evitar o
fechamento de instituições financeiras. Altas taxas de
juro atraíram enormes fluxos de capital. As reservas se
multiplicaram. Os fluxos também alimentaram um boom no
mercado de ações, basicamente referente a ações sem
voto nas empresas estatais. O preço das ações da Telebrás, que responde por metade da capitalização da
bolsa de São Paulo, elevou-se de US$ 2, em 1991, para
US$ 150, às vésperas da quebra de outubro na crise
asiática.
Por volta desse período, a globalização de mercados
financeiros tinha ido tão longe que bancos e companhias
coreanas possuíam 15% dos bônus Brady brasileiros -
instrumento de dívida pesadamente comerciado e garantido
por bônus do Tesouro norte-americano, que foi criado
durante as renegociações de dívidas de países em
desenvolvimento com bancos estrangeiros. Quando os
coreanos se livraram em Wall Street de seus Bradies
brasileiros, para conseguirem dólares para pagar suas
próprias dívidas, o preço destes bônus caiu. Após
alavancarem-se pesadamente para comprarem Bradies, já
que haviam recebido informação confidencial de que o
governo empurraria seus preços para cima comprando sua
própria dívida, os bancos brasileiros, em pânico,
venderam seus próprios Bradies. Perdas pesadas forçaram
o Banco Garantia a negociar sua venda a uma instituição
estrangeira.
Mesmo assim, o Brasil se beneficiou muito da
proliferação global de ativos financeiros nos anos
noventa. Ao atingir seu pico, em 1996, uma espécie de
inchaço fez com que mais dinheiro privado estrangeiro
jorrasse para a América Latina e a Ásia do que em toda
a década de oitenta. No auge da expansão, dois
funcionários brasileiros relataram como o governo
brasileiro canalizou a liquidez global dos anos noventa
para permitir que o Plano Real reduzisse a inflação
anual. "Nossa estratégia foi de utilizar o momento
de extrema liquidez internacional para avançar na
desindexação da economia, melhorando nossa
contabilidade fiscal e reestruturando a produção",
explicaram José Roberto Mendonça de Barros e Lídia Goldenstein. Desde 1990 influxos brutos de capital
cresceram de US$ 5,4 bilhões para US$ 129 bilhões. Nos
últimos dois anos os fluxos brutos dobraram e os
investimentos estrangeiros diretos (IED) multiplicaram-se
cinco vezes, atingindo US$ 17 bilhões, numa fatia três
vezes maior do que sua participação nas exportações
dos países mais pobres. Graças, em grande parte, a
esses enormes influxos de capital estrangeiro, nunca um
país emergiu de décadas de inflação crônica com tão
pouco trauma como ocorreu com o Brasil a partir do
lançamento do Plano Real, em julho de 1994. Até
recentemente, comparações com a Coréia provocavam
vergonha e inveja entre brasileiros:
mortalidade infantil de 44 por 1.000 nascidos no
Brasil, contra apenas 10 por 1.000 na Coréia.
Apenas 31% dos adolescentes brasileiros se
matricularam em escolas secundárias, com altas taxas de
repetência, enquanto 92% dos jovens coreanos faziam o
mesmo.
Inflação anual de 5.115% no Brasil até meados
de 1994, contra apenas 5% na Coréia. No início da
década de noventa, a Coréia tinha superávits
governamentais na média de 2,7% do PIB, contra déficits
brasileiros que excediam 50% do PIB, fazendo com que
governos no rastro da inflação crônica imprimissem
dinheiro para manter a economia em movimento. Na Coréia,
desde 1970, a folha de pagamento do funcionalismo era de
15%, do gasto total entre todos os níveis
governamentais, contra 60% no Brasil.
Desde 1980, a economia brasileira tem crescido
numa taxa média anual de apenas 2,7%, enquanto o
crescimento coreano tem sido de 9%. A renda per capita da
Coréia foi multiplicada de US$ 150 em 1964 para US$
10.600 em 1996.
Então o tufão asiático atacou. "Enfrentamos
graves problemas", afirmou o presidente eleito Kim
Dae Jung. "Entramos numa espiral de gastar dinheiro
emprestado, e nós somos os únicos que podemos ser
responsabilizados pela bagunça". No final de 1997,
os US$ 100 bilhões de dívida coreana de curto prazo
correspondiam a 25 vezes suas reservas oficiais, que
evaporaram depois que o Banco Central temerariamente
emprestou sua própria reserva de moeda forte para
financiar a expansão de ultramar das chaebols. A
renegociação das dívidas de curto prazo dos bancos
coreanos, em 1998, excluiu US$ 40 bilhões de
empréstimos estrangeiros feitos pelas chaebols. As
filiais de ultramar dessas mesmas empresas, respondem por
US$ 50 bilhões da dívida externa coreana.
O Brasil possui alguns grandes grupos locais, mas nada
comparável às chaebols coreanas. Em 1992, as chaebols
consistiam de 78 grupos e suas 1.056 filiais, ligados
tanto por propriedade como por um labirinto de garantias
cruzadas de dívida entre companhias dentro do mesmo
grupo. Os cinco maiores grupos possuíam uma média de 42
filiais (inclusive quatro companhias financeiras que não
eram bancos) que operavam em 30 indústrias. As quatro
maiores chaebols (Hyundai, Samsung, Daewoo e LG) geravam
60% das vendas e 78% dos lucros dos 30 maiores grupos,
cujas dívidas cresceram para atingir o equivalente de
519% do valor das ações em 1997. As enormes dívidas
das chaebols têm ficado, desde os anos sessenta,
entrincheiradas na política econômica da Coréia.
Alguns economistas coreanos argumentam que o controle
acionário cruzado entre firmas da mesma chaebol
representa "capital imaginário", que faz com
que o cálculo da relação entre valor da dívida e das
ações torne-se ainda mais alto que os níveis
alarmantes dos quais se têm notícia. Ao mesmo tempo que
o tufão asiático aparecia no horizonte, a Daewoo se
tornava a maior investidora estrangeira dos países em
desenvolvimento. O tufão, contudo, deixou-a com dívidas
de U$ 3 bilhões, ou seis vezes seu valor na bolsa.
Por volta de dois terços da dívida externa coreana eram
compostos de empréstimos para bancos locais por parte de
bancos estrangeiros, US$ 55 bilhões dos quais eram de
curto prazo, o que criava grandes riscos para importantes
bancos norte-americanos, japoneses e europeus. Além da
enorme dívida externa coreana, cujo pagamento foi
atrasado, suas companhias lutam com algo como US$ 300
bilhões em dívida doméstica, principalmente de curto
prazo. Resta aos bancos coreanos US$ 52 bilhões em
empréstimos ordenados pelo governo para certas empresas
favorecidas, 56% dos quais não têm valor. As crises
bancárias enfrentadas pela Coréia e o Brasil entre
1995-98 confirmam as descobertas feitas por Andrew Sheng,
da Autoridade Monetária de Hong Kong, num estudo sobre
falhas bancárias em diversos países desde os anos
setenta, que lhe conduziram a argumentar que "a não
disposição por parte de governos de permitir a falha de
bancos, devido ao medo de falências sistêmicas (o
capital bancário é negativo em todo o sistema) faz com
que garantias governamentais implícitas e explícitas
existam para quase todo o passivo bancário.... Assim, um
problema central do sistema bancário global é que,
independente da propriedade pública ou privada dos
bancos, perdas de bancos comerciais em excesso de capital
têm se tornado de facto déficits 'quase fiscais'".
Depois de assinar um acordo com o FMI no final de 1997, a
Coréia tenta sacudir a poeira e dar a volta por cima. A
dívida externa da Coréia de US$ 187 bilhões equivale
praticamente ao mesmo percentual do PIB da dívida em
1980. Com surpreendente decisão e realismo, o presidente Kim, um veterano político da esquerda que sobreviveu à
prisão e a tentativas de governos militares de matá-lo,
contratou antigos altos funcionários norte-americanos
para aconselhar na renegociação de US$ 24 bilhões em
empréstimos de curto prazo para bancos coreanos com
juros mais baixos do que os demandados por bancos
estrangeiros, em troca de garantias governamentais. No
primeiro trimestre de 1998, a Coréia teve um superávit
comercial de US$ 8,6 bilhões, graças a uma queda nas
importações, contra os contínuos déficits
brasileiros, ao mesmo tempo que as reservas se
recuperavam, atingindo US$ 32 bilhões, depois de terem
despencado para US$ 4 bilhões em dezembro. Em abril, no
tiro de largada da corrida coreana para vender US$ 9
bilhões de bônus em 1998, o governo coreano lançou US$
4 bilhões em bônus globais junk rated, com juros de
spread mais baixos do que os que o Brasil conseguiu uma
semana antes. Para abrir sua economia, ao mesmo tempo que
tenta superar um generalizado sentimento de fracasso e
ressentimento que chega a se aproximar da xenofobia, o
governo eliminou limitações na compra por estrangeiros
de ações de empresas coreanas, e insistiu que a
contabilidade empresarial fosse mais rigorosa e
transparente. Além dessas medidas, delegações estão
sendo enviadas para o exterior a fim de atrair
investimento estrangeiro, tendo como alvo 222 companhias
estrangeiras.
Ao mesmo tempo que, no final de 1997, investidores
estrangeiros procuravam por pechinchas na Coréia, seus
cidadãos, ao serem mostrados ao redor do planeta pela
televisão, formando filas para vender um valor
equivalente a US$ 2 bilhões em jóias de ouro, que
depois de convertidas em barras foram exportadas para
servirem de apoio para a moeda local, se tornaram
simpáticos aos olhos do mundo. Enquanto a moeda
murchava, preços domésticos disparavam. Só o trigo
aumentou em 60% e o óleo para a cozinha em 56%. Faltava
às fábricas matérias primas básicas como alumínio,
algodão, couro, pedaços de aço e cobre. Nos hospitais,
por sua vez, não se encontravam vacinas importadas e
filme para raio X. Universitários, incapazes de pagar
suas mensalidades, deixavam de estudar para ingressar no
exército. Antes de tomar posse em fevereiro, Kim
persuadiu o militante sindicalismo coreano a aceitar
mudanças na legislação trabalhista que permitiriam
firmas em vias de falência ou fusão a demitir um
milhão de trabalhadores. Convenceu seus antigos
companheiros com a promessa de que o Congresso
reforçaria a proteção social. Mas a militância
sindical renasceu no começo do ano, com o aumento
significativo do desemprego no setor industrial, em
parte, contrabalançado, como no Brasil, pelo crescimento
do setor informal. O desemprego aberto subiu de 2,3%, em
outubro de 1997, para 6,7%, em março de 1998, e pode
chegar a 10% no final do ano. O número de suicídios
aumentou 36% nos primeiro trimestre de 1998 em
comparação com o mesmo período do ano passado. Como em
Lima, durante o colapso econômico de fins da década de
oitenta, jovens desempregados roubam tampas de esgoto
para venderem como ferro velho. Roubos em Seul cresceram
45%. Donas de casa foram presas por pequenos furtos em
supermercados e trabalhadores desempregados por
arrombamentos o que a imprensa local intitulou de
"crimes de sobrevivência do FMI".
O pessimismo se aprofundou depois do
início de uma recuperação no começo de 1998.
Oficialmente, 13.971 firmas faliram durante 1997, entre
elas oito chaebols que tinham dívidas combinadas de US$
21 bilhões. O Instituto Coreano de Finanças afirma que
outras 50 mil firmas vão seguir o mesmo caminho em 1998,
sendo esperado que uma nova onda de falências inicie-se
em agosto. "Caminhamos para o derretimento de todo o
setor financeiro", afirmou Stephen Marvin, diretor
de pesquisa no Ssangyong Investment & Securities de
Seul. "Haverá mesmo a nacionalização do sistema
bancário". Até o momento, contudo, a maior parte
das empresas falidas continua a operar no limbo, com os
quatro tribunais de falência de Seul sendo inundados a
cada dia por novos casos, ao mesmo tempo que bancos, com
US$ 91 bilhões em dívidas ruins e preocupados sobre
como poderiam contabilizar suas perdas, injetaram mais
US$ 1,5 bilhões em 11 companhias com problemas. As três
firmas que controlam dois terços dos US$ 100 bilhões
dos fundos de curadoria da Coréia perderam US$ 2,6
bilhões e podem ter secretamente desviado mais US$ 10
bilhões para suas contas. A falência de alguma das
maiores e mais respeitadas empresas da Coréia fez com
que os bancos se tornassem incrivelmente relutantes em
descontar notas promissórias, forma de pagamento
tradicionalmente muito utilizada.
No dia em que as dificuldades financeiras da Coréia se
tornaram notícia no mundo todo, jornais brasileiros
noticiavam, sem maior alarde, que o Senado em Brasília
tinha aprovado um empréstimo federal de US$ 44 bilhões
para resgatar o governo estadual de São Paulo de sua
complicada dívida com o Banespa. Esse banco apostava
corrida, pescoço a pescoço, com o francês Crédit
Lyonnais pelo Grande Prêmio da maior quebra de banco na
história do sistema financeiro mundial. (Ver: "King
Kong no Brasil: falências estaduais e fracassos
bancários", Braudel Papers . No. 15 (1996)). Os
respectivos governos nacionais cobraram um alto preço de
seus contribuintes para salvar o Banespa e o Crédit Lyonnais. Enquanto o FMI mobilizava US$ 118 bilhões para
resgatar a Coréia, Tailândia e Indonésia de suas
dívidas, o Brasil mostrava ao mundo que não precisava
de ajuda do FMI já que sua economia de transferência
tinha gerado seu próprio FMI, mais generoso e menos
"reclamão". Entre 1995 e 97, autoridades
federais brasileiras mobilizaram algo como US$ 150-US$
200 bilhões, ou o equivalente de um quinto a um quarto
do PIB anual, para salvar bancos e governos estaduais
falidos e para contratar dívida interna a fim de evitar
uma expansão monetária decorrente do crescimento das
reservas.
Ao mesmo tempo que transferências econômicas
desastradas na Coréia tomaram corpo em investimentos
exagerados que causaram desperdício e alimentaram a auto-destruição, a economia de transferência do Brasil
alimentava enormes fardos de parasitismo fiscal,
conduzindo a investimentos cronicamente deficientes.
Depois de longos adiamentos e negociações tortuosas, o
Congresso emendou a populista Constituição de 1988, em
meio a pressões alimentadas pela crise asiática,
cortando a maior parte dos direitos de seguridade social
e dos funcionários públicos para salvar o setor
público da falência. Essas reformas são versões
diluídas de propostas governamentais que terão seu
efeito fiscal testado por anos de negociações
políticas. A reforma previdenciária parou no Congresso
e a mudança constitucional para acabar com a
estabilidade no emprego de funcionários públicos ainda
precisa ser implementada por legislação ordinária. A
folha de pagamento da maior parte dos governos estaduais
absorve mais de 70% do dispêndio total, mas diversos
governadores anunciaram sua recusa em usar seus novos
poderes para demitir funcionários públicos. O governo
Cardoso está levando adiante um enorme programa de
privatização de empresas públicas para dar maior
eficiência à sua infra-estrutura básica, aumentar a
taxa de poupança e de investimento estrangeiro além de
reduzir os custos de produção no país. Esse programa
já rendeu, desde 1991, cerca de US$50 bilhões para os
governos estaduais e federal, e outros US$50 bilhões
são estimados para os próximos dois anos. Muitos desses
recursos, contudo, estão sendo usados para financiar
obras para as campanhas eleitorais, ao invés de servirem
para diminuir a dívida pública. Albert Fishlow, do
Council on Foreign Relations de Nova York, um veterano
analista da economia brasileira, argumenta que o sucesso
ou fracasso do Plano Real depende do bom uso ou não dos
recursos advindos da privatização. "O governo
terá sucesso se, num ano de eleições, conseguir usar a
renda da privatização para reduzir sua dívida".
Acrescenta Fishlow que isso permitiria que a economia
gerasse mais poupança e investimento. "O Brasil tem
mantido a mesma taxa de poupança durante os últimos 40
anos. Sem aumento, o Brasil não crescerá". No
entanto, o programa de privatizações, que é um dos
maiores já ensaiados no mundo, tem enfrentado problemas,
em meio ao incremento do déficit público a 6,5% do PIB
no começo de 1998 e a projeção que chega a 8%, apesar
de um aumento de 27% na arrecadação aprovado pelo
Congresso como parte de um novo pacote provocado pela
crise asiática. "Os gastos aumentaram em todas as
áreas, como se o governo tivesse perdido sua
disposição de controlar suas despesas", afirmou
Raúl Velloso, um assessor de política fiscal que ajudou
na elaboração do Plano Real. Estes déficits públicos
não incluem aumentos fora do orçamento feitos, durante
a campanha eleitoral, por bancos do governo, como o BNDES
e a Caixa Econômica Federal. Neste ínterim, o programa
de privatização se tornou cada vez mais dependente de
fundos de pensão de empresas estatais e empréstimos
realizados pelo BNDES aos compradores para possibilitar a
venda de empresas públicas com preços inflados, criando
mais uma forma de parasitismo fiscal. O escopo e peso
mais amplo do parasitismo fiscal pode ser ilustrado por
dois exemplos:
Transferências federais para estados e
municípios cresceram enormemente com a constituição
brasileira de 1988. Uma triplicação da participação
dos municípios no gasto público levou à criação de
algo como 1.328 novos municípios para receber essas
transferências. Praticamente todo este dinheiro novo se
destinou a contratar novos empregados locais. Enquanto o
número de funcionários públicos no Brasil é baixo
comparado com o de países ricos, ele é alto em muitas
comunidades que dependem das transferências, salários e
pensões do governo central para sua sobrevivência. Dos
5.507 municípios brasileiros, em 95% deles menos de 20%
de seus gastos provêem de imposto local. Esta
dependência em transferências moldou a cultura
política brasileira e lhe deu uma extraordinária
elasticidade. Durante a última década, ela também
gerou crescentes dívidas públicas que ameaçam a
estabilidade econômica.
Aposentadorias públicas no Brasil absorvem 12% do PIB, aproximadamente o mesmo que na maior parte dos
países europeus, o que representa um fardo pesado para
uma população muito mais jovem, e é praticamente o
mesmo que toda a receita tributária. Com quase a metade
da força de trabalho possuindo empregos informais, a
rede de contribuintes está encolhendo. Enquanto todos os
níveis de governo pagaram, em 1997, US$ 52 bilhões em
aposentadorias para antigos empregados, receberam apenas
US$ 10 bilhões em contribuições. A idade média de
aposentadoria tem sido de 49 anos por tempo de serviço
(nominalmente 30 anos). Aposentados precoces (16% de
todos os aposentados) recebem 37% de todo o gasto da
Previdência Social. Muitos destes aposentados receberão
a aposentadoria por mais tempo do que trabalharam.
Há duas classes de aposentados: os plebeus e os nobres.
Os plebeus são 87% dos aposentados, a maior parte se
aposentando com 60 anos e recebendo mensalmente da
previdência cerca de US$ 120, o que equivale ao salário
mínimo. Os nobres são os outros 13%, que como membros
de profissões politicamente influentes absorvem um
terço de todos os benefícios. Estes profissionais
podem, através de "regimes especiais", se
aposentar logo que atingirem idades como 45 ou 50 anos,
passando a receber benefícios que vão de 7 a 20 mil
dólares ou mais, o que está além dos sonhos de todos,
a não ser os mais ricos aposentados, dos EUA e da
Europa. Algo como 100 mil funcionários públicos
aposentados recebem pensões mensais que excedem US$
8.000. Em Minas Gerais, uma corrida para aposentadorias,
incentivada pelo medo de mudanças na legislação previdenciária, expandiu-se o número de aposentados em
cerca de 49% nos últimos cinco anos. Fazem parte do
fardo previdenciário do estado, 27 coronéis da PM e 19
fiscais de renda aposentados para cada coronel e fiscal
na ativa. Aposentadorias mensais para coronéis da PM
podem chegar a US$ 20.000. Falsificação de históricos
de trabalho e declarações de invalidez espalham as
fraudes para a obtenção de benefícios. A evasão das
taxas da folha de pagamento da previdência equivale a
40% das contribuições não pagas, com muitas companhias
privadas e agências governamentais ficando com as
deduções salariais para elas próprias. O presidente
Fernando Henrique Cardoso chamou os que se aposentam
antes dos 50 anos "vagabundos em um país de pobres
e miseráveis" que "se locupletam da
Previdência". A proposta de emenda constitucional
prevê um teto salarial de US$ 12.700, teto que o
ex-ministro da Previdência Social, Reinhold Stephanes,
ele mesmo aposentado aos 46 anos, classificou de
"alto demais. O ideal seria algo entre 5 e 6 mil
dólares, como em qualquer outro país do mundo".
O parasitismo fiscal no Brasil cresce, em grande parte,
devido à rápida expansão do sistema político durante
as últimas décadas. No século XIX, a democracia era
uma realidade apenas para o topo da pirâmide da
sociedade. A violência endêmica e a fraude eram como
pragas que infestavam as eleições. Em 1872, apenas um
milhão dos nove milhões de brasileiros, podiam votar e
apenas 20.006 assim o faziam. O historiador Steven Topik
observou: "O total de empregados federais, estaduais
e municipais era de cerca de 200.000 em 1920. Isso
equivalia ao número de votos necessários para vencer as
eleições presidenciais de 1919". No entanto, no
meio século transcorrido desde 1945 até hoje, o
eleitorado cresceu 17 vezes, de 5,9 milhões para 100
milhões. Apesar das falhas do sistema político que se
desenvolveu desde o final do regime militar em 1985, têm
sido noticiados poucos casos de violência e fraude. Mas
com 17 partidos no Congresso, os custos da competição e
o número dos interessados nela têm se multiplicado.
Até 1994, deformações no sistema político eram
financiados sobretudo através da inflação crônica.
Atualmente elas estão sendo patrocinadas por dinheiro
estrangeiro.
As chaebols da Coréia e os governadores dos estados
brasileiros compartilham da dependência em
transferências econômicas desastradas. Nem no Brasil ou
na Coréia este financiamento público de dívidas podres
pode se manter. A crise asiática poderá ou não limitar
a proliferação de ativos financeiros pelo mundo afora.
Mesmo assim, ela está forçando países endividados a
tomarem decisões políticas e a realizarem mudanças
institucionais que eles até o momento evitaram.
Como veremos na segunda parte deste ensaio, no próximo
número do Braudel Papers, a necessidade de mudanças
institucionais e decisões políticas tornam nebuloso o
futuro do Japão e do sistema financeiro internacional.
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