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Braudel
Papers - Nº 21 , 1998
1. Botões, bolhas e o iene
"Os acontecimentos são como
vagalumes na noite brasileira: eles brilham, mas não
iluminam o caminho", observou Fernand Braudel seis
décadas atrás, quando seu carro quebrou numa estrada
solitária no sertão da Bahia. Isto também é verdade
em relação aos acontecimentos decorrentes da
proliferação de ativos financeiros em escala mundial
que geraram a crise asiática, levando às dificuldades
com as quais a economia mundial se depara hoje. Na
primeira parte deste ensaio (Braudel Papers No. 19),
quando descrevíamos a proliferação global dos ativos
financeiros que geraram a crise asiática, observamos que
alguns países se defrontam com alternativas rígidas,
como a Argentina em sua crise bancária e da dívida
externa de 1980-82, tendo que escolher entre o calote, o
aumento do endividamento interno, ou a recessão severa.
Desde então, o video game Dinheiro, Ganância e
Tecnologia gerou apostas muito mais altas. À medida que
o medo cercava o encontro anual do Banco Mundial e do
Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington, o
presidente Bill Clinton advertiu que "o mundo se vê
diante talvez de sua mais séria crise financeira em meio
século".
Indo além da luz dos vagalumes, tentaremos analisar
estas experiências com mais profundidade e sugerir
algumas iniciativas de políticas para lidar com a
perigosa proliferação de ativos financeiros. Em meses recentes, até que o tufão da crise asiática atacasse a
Rússia e rumasse para o Brasil, o centro da tempestade
estava no Japão. As dificuldades do Japão começaram
com a alta do iene e com a abertura de seus mercados financeiros, ambos acelerados nos anos
oitenta. No
inverno de 1986, quando o Japão estava se tornando o
novo rico do capitalismo mundial, essas dificuldades
estavam começando. Nessa época eu visitei Tanabe, uma
cidade medieval e porto pesqueiro, localizada no sul da
ilha de Honshu, com uma população de 70 mil habitantes, onde, nos anos 80 do século
passado, um engenheiro
alemão introduziu a fabricação de botões, ao ensinar
camponeses a cortarem e perfurarem conchas recolhidas por pescadores. Na década de 1930, o Japão
tornou-se o
lider mundial na exportação de botões.
As principais exportações japonesas antes da Segunda
Guerra Mundial eram produtos de seda e algodão, ao mesmo
tempo que indústrias menores criavam um significativo
impacto psicológico nos mercados mundiais. Em 1932,
fábricas com menos de 100 empregados geravam 64% das
exportações japonesas. A venda de brinquedos para o
exterior começou na última década do século passado e
a de botões seguiu-se à bonança financeira estimulada
pela Primeira Guerra Mundial. Em 1935, os microscópios
japoneses chegavam a Boston ao custo total de US$ 1,95
enquanto o equivalente norte-americano era vendido no
atacado por US$ 7,50. No Chile, bicicletas em estilo inglês, fabricadas no
Japão, eram vendidas por US$ 8,00 cada, metade do preço do concorrente alemão mais
barato. É fácil entender porque as exportações
japonesas de bicicletas saltaram de 3 milhões em 1929,
para 23 milhões em 1937.
Em 1986, quando visitei Tanabe, a indústria de botões
enfrentava um dos tufões que freqüentemente atacam a
economia japonesa, mudando sua face. O "choque
Nixon", de 1971, pôs fim ao sistema monetário
internacional de Bretton Woods, com suas taxas de câmbio
fixas e liberou a âncora dólar-iene (US$1 = ¥360), que
tinham tornado possíveis as prodigiosas exportações do Japão. Mas o preço do iene do pós-guerra não tinha
nenhuma relação com a taxa de câmbio utilizada pelo
Japão entre a Primeira Guerra Mundial e a Depressão,
que possibilitou que se tornasse uma das maiores nações
exportadoras do mundo. Em 1949, a ocupação militar
norte-americana tomou a decisão política de fixar a
cotação em ¥360 ao dólar (US$0,0028), o que contrasta
com a média comercial de 40 centavos norte-americanos,
vigente entre as duas guerras mundiais. A grande
diferença entre o iene anterior e posterior à Segunda
Guerra deveria servir para compensar a inflação depois
do conflito e a ruína em que se encontrava a economia japonesa. "Queríamos que os japoneses fossem
capazes de exportar", recorda Tristan Beplat, que
trabalhou com políticas monetárias e financeiras
durante a ocupação. "Nós os queríamos ao nosso
lado politicamente. Em 1949 o Japão foi destruído pela
guerra e devastado pela fome e inflação. Estimamos que
90% das exportações japonesas pudessem ser vendidas a
uma taxa de câmbio de 300, apesar de algumas delas serem
lucrativas mesmo a 200. Mas não queríamos errar com
algo tão importante e finalmente fixamos a taxa em 360.
Para iniciar as exportações, conseguimos um crédito
bancário para comprar algodão na Califórnia e enviamos
missões comerciais às Filipinas, Indonésia e Brasil,
para fornecimento de outras matérias-primas."
Em 17 de agosto de 1971, um domingo, o Presidente Richard
Nixon anunciou, em um dramático discurso na televisão,
o fim da paridade do dólar com o ouro. A medida era
parte de um Novo Programa Econômico, que incluía um
congelamento de preços e salários, uma sobrecarga de
10% nas importações e cortes em imposto que visavam
proteger empregos, ao mesmo tempo em que deveriam
controlar a inflação e o déficit na balança de
pagamento dos EUA. A expansão da liquidez do dólar fora
dos Estados Unidos no pós-guerra obscureceu a conexão
do dólar com o ouro. O secretário da fazenda John
Connally exigiu uma valorização de 20% do iene e mais tarde, revelou a outros ministros de finanças o seu
temor de que o ministro japonês, Mikio Mizuta, pudesse
cometer hara-kiri caso fosse pressionado de forma muito dura. Depois de pechinchar
bastante, Mizuta concordou com
uma redução de 16,9%, ao mesmo tempo que a classificava
como "o maior choque econômico que o Japão
experimentava desde o fim da Segunda Guerra
Mundial". No começo de 1986, a desvalorização do
dólar em relação ao iene alcançou ¥175, ameaçando
em diversas pequenas localidades a sobrevivência de
indústrias tradicionalmente orientadas para a exportação. O Ministério de Comércio Internacional e
Indústria possuía uma longa lista: pinos e agulhas, pratos, botões,
anzóis, brinquedos, decorações de
Natal, bicicletas, talheres, armações de óculos,
correntes e isqueiros.
"Recebi esta manhã um telex dos EUA, solicitando um
desconto de 20% devido ao alto valor do iene",
ressalta Teruo Kanaya, o grisalho rei dos fabricantes de
botão de Tanabe. Kanaya herdara a fábrica fundada por
seu pai em 1919. Se orgulhava da sua agilidade em reagir
rapidamente às mudanças na situação mundial.
"Depois que soube do Choque Nixon, peguei um avião
para os EUA para conversar com meus clientes se deveria
faturar meus produtos em ienes ao invés de dólares.
Chegamos a um acordo de 50-50, para dividir o custo da
desvalorização do dólar entre fornecedor e consumidor.
Agora não podemos mais absorver este custo. Em 1955,
havia 50 fábricas de botões em Tanabe. Agora são
apenas 10. Em 1968, com o iene ainda em 360, exportamos
60% de nossos botões. No ano passado, com o iene em 230,
exportamos apenas 20%. Vinte anos atrás usávamos
somente máquinas japonesas. Hoje usamos maquinaria italiana. Atualmente, muitos países pobres também
compram estas máquinas italianas. De agora em diante,
nos concentraremos no mercado doméstico. A nossa sorte
é que o preço no Japão é 40% mais alto que o preço
de exportação".
Muitos fabricantes japoneses de botões e
artigos natalinos abriram fábricas em países como a
Tailândia e China e mudaram de negócio em casa. Por sua
vez, boa parte de seus empregados trabalham agora em
salões de beleza e supermercados, o que reflete a
tendência mundial de transferência de empregos da
indústria para o setor de comércio e serviços.
"Em 1972, um fabricante espanhol de botões me
visitou e, depois de anos de negociações, montamos uma
fábrica nos arredores de Barcelona em regime de
joint-venture", recorda Kanaya. "Estamos
trabalhando para conquistar uma fatia no mercado europeu
e talvez passemos a exportar para a África. Você sabe,
os espanhóis são trabalhadores esforçados e seus
salários são metade do que pagamos no Japão. E o
preço do terreno da fábrica lá é quinze vezes menor.
Aqui em Tanabe planejo entrar no ramo de comida, que
está crescendo".
Mas na esteira da valorização do iene, muitos dos
pequenos fabricantes japoneses foram deixados para trás.
Por exemplo, depois que o dólar caiu para ¥150, a
pequena loja de máquinas de Takao Suzuki, com três
empregados, as vendas declinaram de US$ 1 milhão em
1985, para US$ 300 mil em 1987. Como Suzuki, muitos dos
donos das 6.000 oficinas familiares do bairro de Ohta
Wan, em Tóquio, que fabricam peças para grandes
companhias, como a Hita e a Mitsubishi, foram
pressionados pelos bancos a tomarem empréstimos. "O
Banco Tóquio-Mitsubishi (então Banco Mitsubishi)
apareceu e nos implorou para que tomássemos um
empréstimo", lembra Suzuki. "Ofereceram US$1,2
milhões. Perguntei: 'o que vou fazer com esse
dinheiro?'. O homem respondeu: ações! Foi isso que fiz,
comprei ações. Mas então, o mercado de ações sofreu
um colapso e Suzuki teve que vendê-las, com uma grande
perda. Hoje ele deve a cinco bancos quase US$2 milhões,
valor 10 vezes superior às suas vendas estimadas para
1998. Quatro desses bancos reclamam um pequeno edifício
que Suzuki deu como garantia, antes que os valores das
propriedades também sofressem um colapso. Em vez de o
executarem, os bancos rolam as dívidas de Suzuki,
cortando juros e emprestando mais. Centenas de milhares
de apostas ruins como essa, são agora um fardo para a
economia e.ajudama explicar o porquê dos bancos
japoneses estarem no fundo do poço.
No início de 1995, o dólar valia apenas ¥80
desvalorizado numa proporção de 450% em relação à
paridade de Bretton Woods e em 1998 recuperou o valor de
¥141. Àquela altura o Japão já tinha afundado em um
mal estar financeiro e político, contra o qual sua elite
burocrática foi incapaz de reagir com a mesma agilidade
e realismo demonstrado pelos fabricantes de botão de
Tanabe. A renda per capita do Japão havia crescido de
US$138 em 1950 para US$41 mil (US$23mil em termos de
poder aquisitivo comparativo) em 1996. Apesar de sua
riqueza, o país tem sido imobilizado por uma misteriosa
paralisia institucional comumente chamada nos últimos
tempos de "doença japonesa". Durante os anos
90, a reforma política veio e se foi, apenas para
resultar, no final, na devolução do poder para a
liderança contaminada pelo faccionismo, do Partido
Democrático Liberal (PLD). O PLD, que tem governado o
Japão por mais de quatro décadas, encontra como único
obstáculo uma fraca oposição parlamentar. Ainda assim,
tem sido incapaz de deter o declínio da credibilidade
das instituições públicas japonesas. Essa atitude é
alimentada por escândalos políticos e financeiros, que
minam um tradicional respeito pela autoridade
burocrática, e entrelaçam-se com a crise bancária da
década de 90 que, por sua vez, deixou os bancos
japoneses com empréstimos ruins calculados em US$1
trilhão.
A ascensão e queda dos preços de ativos japoneses, nos
dez anos posteriores a 1985, correspondeu a uma clássica
bolha financeira, uma das mais espetaculares da
história. Como no caso da maior parte das bolhas, houve
muita discussão sobre se os preços astronômicos das
ações, terras, imóveis, pinturas e títulos de clube
de golfe, eram conseqüência dos fundamentos econômicos
ou da política monetária. O índice Nikkei, de 255
ações, subiu de 13 mil, em dezembro de 1985, para 39
mil, quatro anos depois, para cair em 60% apenas em
1990-92. Em termos de iene, a capitalização do mercado
de ações subiu a 1,6 vezes do tamanho de todo o produto
nacional bruto do Japão, contra menos da metade do PIB
em 1982 e três quartos em 1985. Isso se explica em
razão dos preços das ações estarem intimamente
ligados ao preço da terra, que cresceu mais que todo o
PIB japonês em 1987. Por volta de 1990, o valor de
mercado de toda a terra do país era quatro vezes
superior ao valor da terra dos EUA, que possui um
território 25 vezes maior que o do Japão. Preços de
terras e ações estavam muito ligados, aumentando e
caindo conjuntamente, alimentados por créditos e
investimentos provenientes do sistema financeiro. Até
1995, os preços das terras e ações retornaram aos
níveis onde deveriam estar, seguindo a tendência de
curva ascendente impulsionada em meados da década de 70
até meados da década de 80, o que faria da bolha apenas
um sonho. No entanto, este sonho deixou uma ressaca de
dívidas ruins que afetou profundamente a auto-confiança
japonesa e a credibilidade de suas instituições
financeiras e políticas. As dívidas deixadas pela
falência de companhias no ano fiscal de 1997, cresceram
65%, chegando a US$116 bilhões, o maior nível desde a
Segunda Guerra Mundial. Esta é apenas uma parte do
colossal desperdício de capital.
Em 1927, Leland Jenks advertia em seu The Migration of
British Capital to 1875: "A sobrevivência ou
decadência de antigos sistemas de cultura e reflexão
pode, no final das contas, depender da maneira como se
aplica o capital investido". Ao acumular uma pilha
de poupança doméstica, em torno de US$10 trilhões, o
Japão alimentou esperanças de que poderia desempenhar
um papel similar ao da Grã-Bretanha no século XIX,
gerando até 60% de seu PIB em investimento exterior, que
financiariam a modernização da economia mundial. Desde
1985, o Japão injetou na economia mundial investimentos
que totalizavam algo como US$ 1,5 trilhão e se tornou o
principal exportador mundial de capital, desempenhando um
papel similar ao dos EUA nos anos vinte. Ao assumir esse
papel, o Japão colidiu com o problema institucional de
como gerenciar ativos financeiros que cresciam de maneira
muito rápida, repetindo a experiência dos EUA na
década de vinte.
Enquanto os preços dos ativos caíam, o Banco do Japão
tentava revigorar uma economia estagnada, reduzindo em
dez vezes as taxas de juros, desde 1991, para uma baixa
atual de 0,25%. Os preços de longo-prazo dos títulos do
Japão caíram para 1,07%, um recorde histórico,
quebrando a maior baixa anterior de 1,125%, estabelecida
pelos títulos municipais de Gênova em 1618. Entretanto,
baixas taxas de juros foram incapazes de estimular a
oferta e tomada de novos empréstimos, devido ao medo que
não pára de se espalhar, à capacidade excessiva
presente no comércio e na indústria e ao aprofundamento
de questões institucionais, com as quais o sistema
político é incapaz de lidar. Com o agravamento da
situação, os reguladores japoneses passaram a ajudar
bancos e firmas de corretagem a ocultarem seus problemas.
Em 1991-92, o Ministério das Finanças adotou uma
"política frouxa", permitindo aos bancos não
terem de criar reservas especiais contra empréstimos que
não geravam lucro, o que levou ao uso de uma
contabilidade criativa, na esperança de que os preços
dos ativos subissem futuramente. O pagamento de
dividendos bancários chegou a aumentar, apesar do
declínio dos lucros. Em 1995, o Ministério das
Finanças ajudou o Daiwa Bank a esconder US$1,1 bilhão
em perdas que um de seus traders de bônus em Nova Iorque
havia desviado por mais de 11 anos, o que resultou, mais
tarde naquele ano, numa ordem do Tesouro dos EUA para que
o Daiwa fechasse sua filial americana. Companhias
financeiras (jusen), financiadas por bancos e
cooperativas agrícolas, sofreram um colapso, em razão
do nível atingido pelos preços imobiliários. Coisa
similar havia acontecido nos EUA, no final da década de
80 e início da de 90, quando as poupanças e
empréstimos norte-americanos faliram. O governo procurou
assegurar a boa vontade das politicamente poderosas
cooperativas agrícolas, permitindo que recuperassem
inteiramente seus empréstimos com as jusens, ao mesmo
tempo em que deixava que os empréstimos ruins
permanecessem nos livros dos bancos.
Finalmente, sob pressão estrangeira, em julho de 1998 o
governo japonês anunciou um "Plano Total" para
resolver a crise bancária, falando em fechar
instituições falidas, e transferir seus clientes para
"bancos pontes", geridos pelo governo, a fim de
manter o fluxo de crédito e a aceleração das vendas
dos atualmente deprimidos preços imobiliários, que eram
oferecidos como garantias para empréstimos ruins. A
inspeção bancária seria intensificada e a
liberalização financeira incrementada. Nesse cenário,
fechariam firmas sem condições de saldar suas dívidas,
(como a oficina de Takao Suzuki em Tóquio), muitos
perderiam seus empregos e financistas poderiam ser
processados por má conduta. Um enorme fundo
governamental de socorro pagaria os depositantes e
subsidiaria fusões bancárias. No entanto, a crise das
firmas de poupanças e empréstimo nos EUA alastrou-se
entre centenas de pequenos bancos, enquanto o grave
estouro da bolha japonesa levou à falência tanto bancos
grandes como pequenos, tornando as fusões mais
difíceis. Muitos observadores demonstraram ceticismo
quanto à possibilidade de que esses planos se
traduzissem em ação efetiva, o que levaria a perdas que
invariavelmente acarretariam em altos custos políticos.
Eles foram porém saudados com entusiasmo pela endividada
indústria da construção, uma das principais fontes de
apoio eleitoral para o PLD, já que gera seis milhões de
empregos. Em razão do programa de incentivo econômico
governamental, os empreiteiros podiam receber US$ 55
bilhões em contratos de obras públicas.
Pressões por uma ação mais decidida do governo
cresceram quando as falências e escândalos se
multiplicaram no início de 1997. A quebra da centenária
Yamaichi, uma das quatro grandes firmas de corretagem
japonesa, envolveu US$2,1 bilhões em negócios não
registrados. A televisão transmitiu para todo o mundo, o
presidente da Yamaichi chorando e se desculpando pela
falência. Em 1991, a Yamaichi passou a transferir suas
perdas para subsidiárias e companhias fantasmas, depois
que um escândalo revelou que as Quatro Grandes
compensavam as perdas de clientes privilegiados no
mercado de ações, um costume do passado. Enquanto isso,
32 executivos das Quatro Grandes e do Banco Dai-Ichi, um
dos maiores do mundo, foram processados por terem feito
pagamentos ilegais a um gângster financeiro, algo como
US$3 milhões, cada. O principal banco em Hokkaido, a
ilha norte do Japão, e outra seguradora, Sanyo, também
faliram. O presidente do Banco do Japão, o Ministro e o
Vice-Ministro das Finanças, renunciaram depois que
funcionários graduados foram presos por terem aceito
subornos e ofertas excessivamente generosas de banqueiros
e corretores em troca do vazamento de informações
sigilosas. Entre os presos, estavam dois fiscais do
Ministério das Finanças, que foram humilhados
publicamente enquanto eram filmados pela televisão.
Esses constrangimentos conduziram a oito suicídios,
todos por enforcamento: de um diretor-executivo do Banco
do Japão que investigava corrupção, de dois
funcionários do Ministério das Finanças, de um
ex-burocrata do Ministério das Finanças eleito para o
parlamento, de um executivo de um banco privado e de
três empresários em dificuldades financeiras.
No início de abril, depois que o Banco do Japão
divulgou uma pesquisa sobre a queda da credibilidade
empresarial, o presidente da Sony, Norio Ohga, advertiu:
"A economia do Japão está à beira do colapso
(...) Eu estou preocupado com a possibilidade de o País
entrar em uma espiral deflacionária, que levaria junto
as demais economias asiáticas. Nesse caso, nem mesmo a
economia norte-americana poderia manter sua saúde. Os
políticos japoneses só estão preocupados com seus
próprios eleitores, trabalhando num nível puramente
doméstico. Eles têm que estar atentos ao quadro
mundial. Se você observar o que Hoover dizia no início
da Grande Depressão e o que o (primeiro-ministro
Ryutaro) Hashimoto está dizendo no momento, constatará
que são coisas muito parecidas".
Pobre Herbert Hoover! Este tão castigado presidente
norte-americano, que foi um dos estadistas mais
brilhantes à sua época, tomou posse apenas sete meses
antes da Grande Quebra de Wall Street. Nos anos vinte,
como Secretário de Comércio, Hoover advertiu contra a
perigosa especulação no mercado de ações e pregou
políticas governamentais anticíclicas. Procurou também
mobilizar energias no setor privado para reduzir o trauma
econômico e aumentar a eficiência, utilizando novas
linhas de pesquisa estatística e de análise dos ciclos
econômicos, que passaram depois a serem usadas em
exortações governamentais. Quando o Crash de 1929
apareceu no horizonte, Hoover tinha um plano pronto e
entrou rapidamente em ação com um programa de três
pontos para garantir a demanda e manter a economia em
atividade: (1) mais obras públicas em todos os níveis
governamentais; (2) taxas de juros mais baixas para
facilitar o investimento privado e a construção de
moradias (3) manutenção dos salários altos para evitar
um colapso do poder de compra do consumidor. Poucas
semanas após o crash, Hoover lançou o maior esforço
governamental já visto na história moderna para frear a
crise econômica. Convenceu o Congresso a cortar
impostos, líderes empresariais e sindicais a segurarem
preços, salários e gasto de capital e o Tesouro a
liberar crédito, ao diminuir as taxas de juros de 4%
para 1,75%, a mais baixa já registrada. Com o
aprofundamento da Depressão, criou a Reconstruction
Finance Corporation, que tentou recapitalizar os bancos
ao comprar seus títulos preferenciais. "As idéias
que tomaram corpo na forma da legislação do New Deal
continuaram aquilo que havia amadurecido sob o amparo de
Hoover", escreveu Rexford G. Tugwell, um dos
principais conselheiros do Presidente Franklin D.
Roosevelt (1933-45). "Os Cem Dias (de reforma
agressiva logo depois que Roosevelt tomou posse)
corresponderam mais à quebra de uma represa do que o
surgimento de um rio, do nada".
Para ser justo, é preciso reconhecer que o
ex-primeiro-ministro Hashimoto colocou em prática
algumas das medidas emergenciais que Hoover tomou no
começo da Depressão, ainda que com diferenças que
refletem a profundidade da crise institucional japonesa.
O PLD anunciou pacote de estímulo fiscal de US$ 120
bilhões, o sétimo em seis anos e o maior deles até
agora; mas todos estes pacotes foram incapazes de
revigorar a economia, apesar de bombearem dinheiro para
companhias de construção que enfrentavam problemas e
que têm tradicionalmente dado generosas contribuições
ao PLD. Os governos locais, com grandes déficits,
também se recusaram a gastar em obras públicas. Até
outubro de 1998, o esforço de estímulo se estendeu até
a emissão de vouchers de cortesia, no valor de US$ 220
para cada cidadão, decretando-se os feriados da
"Segunda-Feira Feliz", para proporcionar mais
tempo às pessoas para irem às compras. Até lá, o
Japão já tinha lançado seu Big Bang: um pacote enorme
de reformas financeiras, editadas num tomo de 4,5 Kg e
2.132 páginas. No momento, estas medidas estão sendo
analisadas pelo Parlamento. Elas podem pôr fim ao
tradicional protecionismo dos mercados financeiros,
permitindo aos cidadãos e companhias japonesas
investirem livremente no exterior através de corretoras
estrangeiras. Menlmente, US$ 20 milhões têm saído do
Japão para contas em outros países, à medida que o Big
Bang possibilitaria o acesso a fundos mútuos com
rendimentos mais altos como uma alternativa para contas
de poupança individuais que tinham juros anuais de
apenas 0,25%. As novas regras também eliminarão
barreiras funcionais entre bancos e corretoras e
encorajarão instituições insolventes a fecharem, além
de permitir aos investidores iniciarem suas próprias
mini-bolsas, capazes de competir com a Bolsa de Valores
de Tóquio. Apesar de todas essas medidas, Hashimoto teve
que enfrentar algumas facções do PLD que queriam
depô-lo do cargo, e as panacéias keynesianas fornecidas
por economistas estrangeiros, políticos e jornalistas.
Alguns jornalistas japoneses designaram a imposição de
um pacote por parte dos EUA como uma "segunda
derrota". A cobertura televisiva da chegada, em
junho de 1998, do vice-secretário do tesouro
norte-americano, Lawrence Summers, ao aeroporto de
Narita, foi mesclada com clipes que mostravam o pouso do
avião que trouxe, em 1945, o General Douglas MacArthur
à base aérea de Atsugi. A política econômica externa
dos EUA é conduzida por um dos melhores e mais
brilhantes homens de Wall Street (o secretário do
tesouro Robert Rubin da Goldman Sachs) e da academia
(Summers de Harvard), ambos reagindo de forma desdenhosa
ao que consideraram como vacilação de Hashimoto ao
responder à pressão estrangeira em favor do saneamento
dos bancos e do estímulo da demanda.
Ao pregarem para os políticos japoneses, economistas
estrangeiros não se dão conta que estão lhes
recomendando uma tarefa difícil senão impossível. Um
governo não pode ao mesmo tempo "estimular a
economia" e fazer com que boa parte do sistema
financeiro entre em colapso, como resultado do saneamento
dos bancos, que faz com que desapareçam centenas de
bilhões de dólares de ativos duvidosos, cerca de 30% do
PNB, e alimenta incrementos em falências e desemprego. A
receita em favor de cortes de impostos e mais gastos
deficitários pode piorar ainda mais as coisas, agravando
um problema fiscal já crítico e minando ainda mais a
credibilidade das instituições públicas. É difícil
avaliar a influência do desprezo de Washington na
derrota do PLD na eleição de julho de 1998 para a
câmara alta do Parlamento, que levou à renúncia de
Hashimoto. No que é normalmente um tipo de eleição com
baixo comparecimento dos eleitores, as cidades votaram em
peso contra o PLD, que não conseguiu eleger ninguém nas
quatros maiores cidades japonesas (Tóquio, Osaka,
Yokohama e Nagoya), dando um peso desproporcional à
tradicional base rural e de eleitores velhos do partido.
O cientista político Yoshiaki Kobayashi notou que a
mensagem que os eleitores quiseram enviar na eleição
para a câmara alta é que estão insatisfeitos com o
estilo japonês de redistribuição - que é deixar a
conta para as gerações futuras. Mas se os eleitores
realmente queriam pôr fim às transferências
econômicas desastradas, aparentemente não foi esse o
resultado das eleições. O sucessor de Hashimoto é
Keizo Obuchi, que é membro da maior facção do PLD,
liderada por Noboru Takeshita, tendo este uma base de
apoio importante na indústria da construção. Tanto
Takeshita como o novo ministro da economia, Kiichi
Miyazawa, de 78 anos, tiveram participação na economia
de bolha, ao desempenharem no final dos anos 80 as
funções de ministro da economia e primeiro-ministro.
Não sabemos se num futuro próximo, os problemas
financeiros deslocarão do poder a gerontocracia que
atualmente governa o Japão. Este grupo tem base numa
população em que o número dos adultos com mais de 65
anos ultrapassa o das crianças com menos de 15.
Dados esses constrangimentos, não podemos concordar com
os economistas que acreditam poder fazer com que as
variáveis econômicas dancem como uma orquestra
sinfônica responde à batuta de um maestro. A ciência
econômica tem dado contribuições úteis na
mensuração histórica e formulação teórica, mas tem
incorrido freqüentemente em confusão e contradição ao
recomendar políticas econômicas. J. M. Keynes, um homem
nada humilde, insistia na humildade em sua profissão:
"Se os economistas conseguissem pensar em si mesmos
como pessoas humildes e competentes, no nível dos
dentistas, isso seria esplêndido"! Não obstante,
uma das estrelas da profissão, Paul Krugman, professor
do MIT, recomenda intrepidamente uma política de
inflação prolongada para o governo japonês. Na sua
muito lida e citada home-page na Internet, Krugman
argumenta que "o Japão é vítima da armadilha do
terror da liquidez", o que leva a um excesso de
poupança, taxas de juro quase zero e à expansão do
balancete do Banco do Japão a um nível de 50%. Então,
o que o Japão precisa fazer? Claro, precisa conseguir
mais liquidez. De acordo com Krugman, "a maneira
mais fácil de sair do buraco é fornecer à economia as
expectativas inflacionárias da qual ela depende. Em
termos concretos, isso se traduz com um compromisso
crível do Banco Central para se engajar em políticas
monetárias que em outros contextos seriam consideradas
como irresponsáveis - isto é, ele deve convencer o
setor primário de que não reverterá sua atual
expansão monetária quando os preços começarem a
subir"! Em outras palavras, a inflação, que fará
com que as taxas de juros se tornem negativas, conduzirá
os poupadores a se livrarem de seus ativos financeiros em
favor do consumo. Logo depois, Krugman mobiliza todo um
arsenal de equações matemáticas para impressionar e
persuadir os especialistas. No entanto, no final de seu
ensaio, Krugman volta atrás: "É óbvio que não é
necessário que o Japão faça qualquer coisa. Uma
análise dinâmica revela que (a armadilha da liquidez)
é um fenômeno temporário - no modelo ela dura apenas
um período, apesar da duração desse 'período' não
ser clara (poderia ser de três anos, ou de vinte). Mesmo
que não se adote qualquer ação governamental, o ajuste
de preços ou a mudança estrutural espontânea vai, no
final das contas, resolver o problema. A longo prazo, o
Japão conseguirá escapar da armadilha, qualquer que
seja a política que adote".
A análise de Krugman é importante por duas razões. Em
primeiro lugar, ressuscita a idéia, muito familiar na
América Latina, de que um pouco de inflação é coisa
boa. O problema com essa idéia, que nos anos 50 e 60 foi
incorporada à teoria do desenvolvimento, é que a
inflação cria poderosos interesses camuflados e seus
próprios mecanismos institucionais, além de ser de
difícil controle, uma vez iniciada. Se a idéia voltasse
à moda, já que é defendida por economistas em voga
como Krugman, políticos desesperados e seus acólitos na
profissão econômica, poderiam colocar a perder a longa
e até agora, bem sucedida batalha para institucionalizar
a estabilidade dos preços e a democracia em países como
a Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, México e Peru.
Esse seria um preço terrível a pagar por um expediente
temporário.
Em segundo lugar, a posição de Krugman de recuar
("Mesmo sem nenhuma política, o ajuste de preços
ou a mudança estrutural espontânea vai, no final das
contas, resolver o problema".) também traz consigo
uma lição. Uma retração exagerada freou a expansão
mundial e a proliferação de ativos financeiros,
alimentados numa escala e duração jamais vistos. (Essa
retração tem deixado a atividade financeira com enorme
capacidade ociosa que alteram os valores dos ativos e
impactam outras formas de atividade econômica).O
reajuste precisa encontrar seu caminho dentro do sistema.
Felizmente, não estamos lidando com o colapso
sincrônico dos valores de ativos em todos os principais
países, como ocorreu na Grande Depressão. No entanto,
como a recente experiência japonesa demonstra, a
incapacidade de fazer com que mercados ajustem valores de
ativos e reduzam seus balanços, apenas prolonga a crise.
Uma das lições que o Crasch nos fornece é que a
utilidade de estímulos artificiais é marginal, se não
for combinada com uma reorganização mais profunda da
economia.
Economistas e políticos estão tão obcecados em
procurar analogias entre a recente bolha e o colapso
japonês com o que ocorreu nos anos 20 e 30, que acabam
por ignorar paralelos mais remotoss, como o da ganância
e credulidade de uma "economia de bolha" mais
antiga, South Sea Bubble, de 1720. Boa parte da elite de
poder da Inglaterra de então - ministros, proprietários
de terra, membros do parlamento, e até mesmo a amante do
rei - se envolveram em uma orgia de especulação e
fraudes, que chegou ao ponto de ter que impulsionar uma
importante mobilização política para manter a
monarquia. A South Sea Bubble teve como um sub-efeito um
século de reformas administrativas e políticas que
fizeram com que o governo inglês se tornasse mais
ho-nesto e responsável. É improvável que uma reforma
em tal escala no Japão de hoje, como na Inglaterra de
ontem, seja algo que se faça da noite para o dia, apesar
do que é exigido por muitos estrangeiros. Murray Sayle,
veterano jornalista australiano que há duas décadas
vive com a família em uma aldeia montanhosa, a 90 km de
Tóquio, culpa uma "etnoeconomia" pela
paralisia institucional do Japão:
"Os aspectos mais feios do sistema, que tanto
impressionam os não-japoneses, vêm da idéia de que o
Japão funciona como uma grande família. A agiotagem em
negócios privados e governamentais é praticamente
universal. As grandes empresas ficam com os grandes
negócios, as pequenas com as sobras, mas todo mundo que
faz parte da família continua no negócio. O Japão tem
um número excessivo de bancos, bares, empreiteiras,
varejistas papai-mamãe e mesmo agências do correio.
Porém, eles garantem a sobrevivência de outros
japoneses. Qual é o motivo que faz com que as companhias
japonesas sejam obcecadas pela sua participação no
mercado e não se preocupem com seus lucros? O fato da
participação no mercado se traduzir em empregos para os
japoneses, o que contrasta com o que ocorre com os
acionistas, que não tem nenhum direito de se envolverem
com a gerência das empresas ou exigirem dividendos. (As
dívidas ruins destruíram a fachada de credibilidade do
PLD, já infestado por escândalos, cuja participação
no parlamento vinha há tempos diminuindo). Em qualquer
lugar que seja, apenas um governo forte e unido pode
implementar reformas; o do Japão era, e ainda é, fraco
e dividido, já que continua a tentar, aos trancos e
barrancos, agradar a todo mundo na família."
Como sugeriu em 1992 o reformador político Ichiro Ozawa,
o Japão pode estar precisando de uma renovação similar
à Restauração Meiji, quando alguns samurais sob a
égide de um jovem Imperador derrubaram o shogunato
feudal Tokugawa (1600-1868) e procuraram contato com o
Ocidente para adquirir indumentária tecnológica e
institucional para resistir à interferência estrangeira
e lançar o Japão no seu caminho, de longa duração,
rumo à modernização e ao crescimento econômico
rápido. Mas a atual estrutura de poder talvez seja ainda
muito forte para permitir uma renovação radical. Além
do mais, o envelhecimento da sociedade japonesa pode
obstruir iniciativas corajosas. No vilarejo de Hanbara,
onde Murray Sayle vive, cerca de 350 casas se espalham ao
longo de um riacho na montanha e há um culto em torno da
vizinhança e da ajuda mútua. Mesmo assim o vilarejo
está morrendo. No último ano, houve 17 funerais, e
apenas um casamento e um nascimento em Hanbara. Em 1996,
o número de bebês nascidos no Japão foi o menor desde
1897, quando a população era um terço da atual. Metade
das mulheres com menos de 30 anos ainda não casaram. Há
projeções de que a população idosa do país, com mais
de 60 anos, cresça de 21% em 1996, para 30% em 2010.
Quantidades enormes de dinheiro estão sendo gastas para
construir clínicas para idosos. O cuidado com os mais
velhos absorve mais e mais investimento e força de
trabalho, enquanto a população economicamente ativa
encolhe 1% a cada ano. A natalidade diminui em
praticamente todas as sociedades urbanizadas, mas a
escassez de nascimentos japoneses é agravada por
incentivos perversos. O seguro de saúde japonês não
cobre nascimentos, o que faz com que seja bastante comum
que os pais paguem ao médico que faz o parto US$3.000 em
dinheiro vivo para poderem levar o filho para casa. A
educação é muito competitiva e cara, ainda mais
levando-se em conta os custos com os tão comuns cursos
de reforço extra-escola. Apesar de décadas de debate e
preocupação pública com o envelhecimento da
população e o declínio da natalidade, pouco tem sido
feito para remover esses incentivos perversos. Mesmo com
os déficits governamentais já atingindo 7% do PNB,
três vezes mais que a média das principais economias, e
com as dívidas públicas atingindo 100% do PNB, o que
seria ainda mais alto se fossem incluídas dívidas
contraídas com o sistema de poupança dos correios,
estrangeiros clamam por maiores estímulos fiscais e
gasto deficitário. No ínterim, muitos japoneses têm
uma atitude despreocupada em relação ao declínio
econômico. "As pessoas se queixam da situação da
economia" afirma Mitsuo Okura, que administra uma
pequena fábrica de plásticos em uma cidade a 300 km de
Tóquio. "Mas quando dou uma olhada ao redor da
minha casa, vejo que tenho tudo o que quero. Tenho três
carros, como a maioria das pessoas; tenho uma máquina de
lavar e um congelador, assim como todos os meus vizinhos.
Mesmo que ninguém enxergue um futuro radioso pela
frente, não há nenhum sentimento de crise. A
desregulação é inevitável. O desafio é descobrir o
que pessoas como eu têm que fazer. Se todos dissermos
que as coisas novas não são boas, o próprio Japão
não será bom".
2.
"Papai Noel está morto"
Os problemas bancários do Japão e o
cerne da crise asiática, devem ser observados em uma
perspectiva mais ampla. O US$1 trilhão de dívidas ruins
sustentadas pelos bancos japoneses é superior, tanto em
termos absolutos como relativos, a quase 30% do PNB,
excedendo os ativos de mau desempenho na maioria das
crises bancárias recentes ao redor do mundo. Quando a
atividade financeira internacional expandiu-se, a partir
dos anos 70, crises bancárias estouraram em cerca de 40
países ricos e pobres. Notavelmente, as quebras
colossais do Banespa (US$24 bilhões), e do Crédit
Lyonnais ($32 bilhões) em 1995, não envolveram nem uma
crise cambial, nem uma quebra na bolsa (ver "King
Kong no Brasil", Braudel Papers No. 15). Também a
economia mundial continuou crescendo e a inflação
diminuiu, apesar da turbulência financeira das décadas
recentes.
Esta estabilidade global não significa que nesse tempo
estivéssemos livres de risco ou perda. Até que o
México se tornasse inadimplente, em 1982, as dívidas
externas de países em desenvolvimento remontavam a US$
720 bilhões, ou um terço de todos os ativos bancários
internacionais. Hoje estes países respondem por mais de
dois terços dos empréstimos dos bancos internacionais.
O custo da atual onda de socorro a bancos mexicanos é
calculado oficialmente em US$65 bilhões, ou 16% do PNB,
mas avaliações particulares garantem que esse índice
é muito maior. No Chile, as perdas privadas na crise
bancária de 1982, remontaram a 28% do PNB. Nos Estados
Unidos, quebraram mais de 1.300 bancos e 1.400
instituições de poupança e empréstimo sofreram
fusões em 1980-91, contra apenas 210 casos em 1945-79.
Em 1991, recursos de bancos falidos remontaram a US$66
bilhões, o mais alto nível desde os anos trinta,
incluindo 11 bancos com recursos de pelo menos US$ 1
bilhão. De acordo com Andrew Sheng, do Hong Kong
Monetary Authority, estas quebras encarnam "grandes
problemas de perigo moral em quase todos os países. As
administrações de banco arriscaram além dos níveis de
prudência, porque as perdas foram suportadas em última
instância pelo estado. Sob incentivos perversos e
supervisão falha, até bons gerentes de banco se
tornaram gerentes ruins, ocupando-se de especulação,
gasto excessivo e, em última instância, fraude".
Nossa margem de segurança está embutida nas facilidades
institucionais próprias para apoiar países em
dificuldade. Estas facilidades não são seguras nem
infinitamente elásticas. Os EUA conduziram todo o
bem-sucedido esforço de salvamento internacional do
Dawes Plan, de 1924, até os bailouts asiáticos de
1997-98. Porém oe EUA causaram grandes perturbações
quando dirigidos por pressões domésticas, como no
sistema de Breton Woods, com taxas de câmbio fixas em
1971 e elevação das taxas de juros em 1979 para deter a
inflação e defender o dólar. "Papai Noel está
morto," afirmou em 1972, George Schultz, querendo
dizer que os Estados Unidos não agiriam como um salvador
monetário global, se isto significasse debilitar os
prospectos de reeleição do Presidente Nixon.
Toda crise financeira internacional das décadas
pós-guerra foi permeada pelo medo, pela recriminação e
por manobras para transferir o fardo do ajuste de um
protagonista para outro, como o fez a Grã-Bretanha nos
anos 1920, persuadindo os Estados Unidos a diminuir as
taxas de lucro, facilitando a bolha do mercado financeiro
de Wall Street, para que o Banco da Inglaterra não
tivesse que subir sua própria taxa de juros para
sustentar uma libra sobrevalorizada.
Não obstante, a cooperação institucional continuou
evoluindo de uma crise a outra. Primeiro, vieram as
negociações originais das condições do acordo de 1944
de Bretton Woods que estabeleceu o FMI e o Banco Mundial,
seguido pelo Plano Marshall e a criação da OECD com o
começo da Guerra Fria. Despois surgiram atritos gerados
pelos déficits internacionais dos Estados Unidos dos
anos 60 seguidos pela denúncia do presidente francês
Charles De Gaulle, do "privilégio exorbitante"
usado pelos EUA para imprimir os dólares que permitiam
que as companhias norte-americanas comprassem companhias
européias. Os mesmos deficits acabaram com as taxas de
câmbio fixas de Bretton Woods. Logo depois, nas duas
crises do petróleo dos anos 70 produziram as tentativas
de reciclar os petrodólares ems crises de dívida dos
anos 80. Uma nova geração de problemas apareceu com o
fim do império soviético no começo da década de 90,
que coincide com a proliferação de ativos financeiros.
A quebra do peso mexicano e o socorro internacional em
1995, bem como as crises asiáticas são sub-produtos da
expansão financeira, começando com o colapso da bolha
japonesa em 1990 e as atuais dificuldades da Tailândia,
Coréia, Indonésia, Malásia, Rússia e Brasil.
O mundo e seus líderes tendem a jogar perigosamente
entre dois pilares opostos: ou uma convicção exagerada
na intratabilidade dos problemas, ou uma excessiva
confiança na sua solução," observa Harold James
em International Monetary Cooperation since Bretton Woods
(1996). "Arrogância e desespero perseguem um ao
outro em sucessão rápida. A tarefa das instituições
internacionais, e do processo de vigilância, para
assegurar que os problemas sejam evitados, é
analisá-los, compreendê-los e então agarrá-los".
A crise asiática estava se aprofundando em setembro de
1997, quando financistas se reuniram em Hong Kong para as
reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial. Na
oportunidade, o Comitê Interino do FMI endossou um
movimento para a eventual conversibilidade de contas e
capital - movimento irrestrito de dinheiro entre países.
Com as dificuldades da Tailândia, Indonésia, Coréia,
Malásia e Japão, esta idéia provocou uma reação
bastante adversa de alguns economistas. O professor
Jagdish Bhagwati, da Universidade de Columbia, renomado
analista e defensor do livre comércio de bens e
serviços, questionou a legitimidade, sensatez e
importância do movimento de capital entre mercados
financeiros propensos à crise, sob um "mito
capital" criado "pelo que se poderia batizar de
complexo do Tesouro de Wall Street, ..., uma panela de
luminares afinados de instituições poderosas - Wall
Street, o Tesouro, o FMI, o Departamento de Estado e o
Banco Mundial, mais proeminente entre eles.". Essa
discussão provocou uma idéia oposta: a restauração
dos controles de capital. De acordo com o professor Dani
Rodrik, da Universidade de Harvard: "Podemos
imaginar casos onde a aplicação judiciosa de controles
de capitais poderiam ter prevenido uma crise ou reduzido
em muito a sua magnitude. A Indonésia e Tailândia
teriam se saído melhores se os empréstimos no
estrangeiro tivessem sido restringidos, em vez de
encorajados. A Coréia poderia ter evitado a recente
corrida às suas reservas se houvesse controlado os
empréstimos a curto prazo, mantendo sua exposição a
curto prazo para bancos estrangeiros em 30%, em vez de
70% de suas obrigações. Quais dos recentes estouros nos
mercados financeiros internacionais poderiam ser
prevenido pela ausência de controle?" Em um estudo
do efeito de controle de capitais no Brasil, Eliana
Cardoso e Ilan Goldfajn do FMI, argumentam que ele
permite aos governos um repouso de cerca de seis meses,
lidando com mudanças súbitas em fluxos "onde taxas
de juros estrangeiras e efeitos de contágio aparecem
como determinantes de fluxos de capitais importantes para
o Brasil". Krugman sugeriu em um artigo na revista
Fortune (setembro de 1998) que os países asiáticos
utilizassem controles de câmbio para lidar com seus
problemas financeiros, uma política que a Malásia
adotou uma semana depois.
O ponto crucial deste debate fica nas diferentes metas de
estados modernos e mercados. O Professor Richard Cooper,
da Universidade de Harvard, acha que "os mercados
financeiros são motivados somente pela cobiça e medo, e
tudo o que querem é encontrar uma maneira de ganhar
dinheiro no sistema econômico, sem se expor a um risco
excessivo. Muitos têm sucesso, mas muitos também
falham, o que indica uma escolha ruim e também má
sorte", causando impacto na atividade econômica,
taxas de juros e empregos, como demonstrado pela crise
asiática. Em contraste com o comportamento
"míope" dos mercados, os Estados modernos têm
que servir como guardiães do bem-estar e da
estabilidade. "Porque os sistemas financeiros não
são intrinsecamente robustos," acrescenta Cooper,
"os governos têm que se preocupar com a
manutenção do sistema".
O programa de estabilização do FMI segue hoje o padrão
básico dos empréstimos de emergência estabelecidos
pela Liga das Nações para ajudar países europeus,
alguns deles criados após a Primeira Guerra Mundial,
para superar a hiperinflação dos anos 20. A pequena
equipe de brilhantes economistas da Liga teve três
ganhadores do prêmio Nobel. Dos 24 países que conviviam
com alta inflação, só seis (Áustria, Hungria,
Bulgária, Gdansk, Estônia e Grécia) foram contemplados
com o programa de estabilização da Liga das Nações.
Alemanha, Inglaterra, Bélgica, França, Itália,
Romênia e Polônia, também receberam empréstimos
estrangeiros de bancos centrais. Não obstante, em seu
estudo clássico The Course and Control of Inflation; A
Review of Monetary Experience in Europe after World War
(1946), Ragnar Nurske concluiu que "o papel da ajuda
financeira estrangeira para assegurar o sucesso técnico
da estabilização do câmbio era relativamente
secundário. Empréstimos e créditos estrangeiros, por
si só, não foram suficientes para causar a estabilidade
efetiva no câmbio de um país e nem sempre eram
necessários àquele fim".
O FMI tem sido caricaturado cruelmente ao lidar com a
crise asiática. Jeffrey Sachs argumenta que "o FMI
estava se divertindo muito ao controlar 80 países no
mundo para observar" que as instituições
internacionais "provaram estar tecnicamente pouco
preparadas para o desafio" de reativar economias com
problemas. Embora possa haver razões para criticar o FMI
por seu sigilo e por detalhes de suas políticas, nenhuma
outra agência assumiu a tarefa suja e frustrante de
lidar com situações caóticas onde os governos
nacionais falharam, num esforço para superar a loucura
econômica e a insolvência financeira e proteger o
sistema de pagamentos internacionais. À medida que os
bailouts sob programa do FMI durante o ano prévio
chegaram aos US$180 bilhões, os céticos questionaram a
capacidade financeira e política do FMI para lidar
generosamente com crises futuras.
O calote da Rússia, logo após o anúncio do empréstimo
de US$ 23 bilhões do pacote de resgate do FMI, trouxe
mais medo. "O pânico dos investidores ao final de
agosto decorreu da constatação que acabou a confiança
no emprestador em última instância do sistema
financeiro mundial, o FMI", observou Marcelo Allain,
do banco BMC de São Paulo. A idéia de um credor de
última instância tem uma antiga descendência, que pode
ser traçada desde a ajuda do Banco da Inglaterra aos
investidores na South Sea Bubble de 1720. Em seu estudo
clássico sobre A Grande Depressão, 1929-1939, Charles
Kindleberger argumentou que "se a fuga de capitais
bancários (em 1931) na Áustria, Alemanha e
Grã-Bretanha tivesse sido sustada por uma ajuda
internacional no momento certo em escala maciça, os
poderes recuperadores básicos dos mercados competitivos
teriam prevenido a Depressão de ter continuado por tanto
tempo e de forma tão profunda". Entretanto, as
distorções financeiras nos anos 20 e nos anos 90,
tiveram oportunidade de crescer tanto que elas desafiaram
sua capacidade institucional para operações de
salvamento.
Muito antes do calote de sua dívida pública e a quebra
do rublo, a falência da Rússia foi anunciada pela onda
de mortalidade que se seguiu ao colapso da União
Soviética, impactando em ambos os sexos e todos os
grupos de idade, especialmente nos homens em idade de
trabalho. A mortalidade masculina cresceu para 53% em
1990-94, atingindo os níveis da maioria dos países
atrasados da África. A humanidade raramente viu ondas de
mortalidade nesta escala, sem que estivessem associadas
historicamente à guerras, pragas e fome. Uma modesta
recuperação ocorreu após 1995, à medida em que o
desespero e as novas oportunidades trouxeram à tona os
esforços extraordinários de pessoas tentando sobreviver
ao colapso do planejamento centralizado comunista.
Começando com quase nada, as redes comerciais se
desenvolveram rapidamente. O sinal mais claro delas foi a
súbita proliferação de quiosques pré-fabricados do
lado de fora das estações de metrô e em outros
espaços abertos nas cidades russas. O enorme sistema de
metrô de Moscou tornou-se uma das principais artérias
comerciais da Rússia. As escadas rolantes estavam
lotadas e eram comumente avariadas por pessoas empurrando
carrinhos de compras cheios de bens, que iam a um ponto
da cidade para comprar e vender seus produtos. Os
corredores de conturbadas entradas de metrô e pontos de
baldeação estavam transbordando de pessoas de todas as
idades vendendo quantidades patéticas de óleo de
cozinha, sabonete, fios elétricos, pão e velhos livros
e revistas. Sua tenacidade e bravura eram tão
impressionantes quanto seu desespero. Milhões de pessoas
ficaram sem pensões ou salários, enquanto o governo
lutava para defender a moeda e segurar a inflação,
mesmo quando os grandes empresários e
"oligarcas" financeiros se apropriavam dos
ativos públicos em acordos de privatização arranjados.
O principal auditor da Rússia confirmou que parte dos 23
bilhões de dólares da ajuda internacional foram
roubados. Sofrendo uma perda entre US$ 500 milhões e US$
2 bilhões da dívida da Rússia e derivativos, o Credit
Suisse First Boston acusou as companhias russas de terem
gerado US$ 66 bilhões em migração de capitais de 1994
a 1997. A tributação russa não chegou a 10% do PIB,
equivalente ao nível de impostos da Bolívia às
vésperas da hiperinflação em 1985, insuficiente para
dar base a um aparato de governo instável espalhado na
massa territorial da Eurásia com 10 diferentes fusos
horários. Então o governo central ruiu. Com o povo
russo enfrentando fome no inverno, o primeiro-ministro
Yevgeny Primakov apelou para uma ajuda internacional em
alimentos. Enquanto isso, os caciques regionais ocuparam
o vácuo fiscal e de poder, levantando questionamentos se
a federação russa iria se fragmentar, assim como havia
ocorrido com a União Soviética em 1991. Os governadores
dos oblasts (estados) seguram transferências de impostos
para Moscou, decretam controles de preços regionais e
administram suas próprias relações internacionais,
formando parcerias com comandantes militares locais que
ignoram as ordens de seus superiores nominais. Analistas
falam de "principados semi-feudais" formando-se
em torno de oblasts e repúblicas mais fortes. O
"balanço de terror" da Guerra Fria entre as
superportências nucleares é substituído pela chantagem
nuclear, com o mundo exterior pagando grandes quantias
para manter uma autoridade central sobre um enorme
território que contém 30.000 ogivas.
Tanto na Rússia como no Brasil, os investidores
estrangeiros sucumbiram à tentação de emprestar a
taxas de juros astronômicas na divída do governo, 120%
na Rússia e 43% no Brasil, cada qual absorvendo o grosso
da onda de investimentos para a Europa Oriental e
América Latina no início de 1998. Ao emprestar à
Rússia, os bancos estrangeiros aceitaram como garantia
títulos do governo russo, os quais não foram pagos a
partir do dia 17 de agosto, a data do testemunho de
Clinton no escândalo Monica Lewinsky. Semanas antes do
calote russo, grandes firmas como Goldman Sachs, Chase
Manhattan, JP Morgan e Deutsche Bank levantaram US$ 10
bilhões em titulos de créditos para o governo e
companhias russas, que foram expressivamente demandados
por bancos, corretoras hedge funds, e fundos de apostas
arriscadas de grandes investidores. A Goldman Sachs usou
US$ 550 milhões de seu próprio capital para bombear a
demanda de US$ 1,25 bilhão em títulos russos que estava
promovendo. Parte dos lucros foi usada para pagar de
volta sua fatia de US$ 250 milhões de um
empréstimo-ponte que havia feito anteriormente, e então
rapidamente vendeu sua própria posição pouco depois do
colapso da Rússia, dizendo mais tarde que suas perdas
haviam sido "absolutamente mínimas". À medida
que o pânico se alastrou pelo mundo, os investidores
internacionais, muitos já tendo emprestado grandes
quantias com a intenção de fazer altas apostas,
perderam US$ 95 bilhões em papéis de mercados
emergentes, de acordo com JP Morgan, que em 10 dias
registrou um queda de 25% em seu Emerging Market Bond
Index. Greenspan afirmou que o calote da Rússia iniciou
uma "mudança fundamental de atitudes... em
direção a uma aversão ao risco praticamente em todo o
mundo, como foi demonstrado principalmente nos mercados
financeiros", criando "uma vasta área de
incerteza e medo". Então os circuitos do video game
Dinheiro, Ganância e Tecnologia ficaram tão quentes que
a máquina quase explodiu.
A explosão foi ameaçada pelo fracasso do hedge fund de
setembro de 1998 curiosamente chamado de Long-Term
Capital Management, conduzido por traders hiperativos,
economistas, matemáticos e computadores procurando
mercados financeiros globais para encontrar e apostar
-usando fundos emprestados-, na correção de
anormalidades fugazes nos preços de títulos ou
derivativos nos mercados. Pressionados pelo Federal
Reserve Bank of New York, 15 bancos, tendo emprestado US$
100 bilhões ao hedge fund, colocaram outros US$ 3, 6
bilhões no Long-Term Capital para evitar mais pânico.
Isto ilustrou o que Joseph Schumpeter, em seu Business
Cycles (1939), chamava "a maneira pelas quais os
recursos financeiros são providenciados com o propósito
de providenciar recursos financeiros, acomodações para
providenciar acomodações, à medida que nos afastamos
cada vez mais das forças motoras de nosso
processo".
Homens notáveis conduziram o Long-Term Capital como uma
parceria de jogadores high-tech. Seu líder era John
Meriwether, que foi forçado a renunciar à
vice-presidência do Salomon Brothers, com o resto da
cúpula dirigente, por esconder a fraude da Salomons nas
negociações dos títulos do Tesouro norte-americano em
1991. Encabeçando a investigação do Federal Reserve na
fraude da Solomon estava David Mullins, um ex-professor
da Harvard Business School que renunciara à
vice-presidência do Fed em 1994 para se tornar um dos
co-fundadores do Long-Term Capital. A diretoria do hedges
fund estava adornada pela autoridade intelectual de Myron
Scholes e Robert Merton, que compartilharam em 1997 o
Prêmio Nobel de economia por seu trabalho sobre
derivativos. Assim como os hedge funds estão livres da
regulação do governo, o Long-Term Capital pode usar US$
2, 2 bilhões em fundos dos investidores como garantia
para comprar US$ 125 bilhões em ativos e alavancar estes
papéis como novas garantias em transações exóticas no
valor de US$ 1,25 trilhão.
Após colher lucros que excederam os 40% em 1995-96, o
retorno caiu para 17% em 1997, com o início da crise
asiática. À medida que as notícias pioravam em 1998, o
capital do Long-Term Capital murchava de US$ 4, 8
milhões em janeiro para US$ 2, 3 bilhões após o calote
da Rússia em agosto, e para US$ 200 milhões, um pouco
antes do bailout de fins de setembro. Ninguém sabia os
riscos que corriam as instituições financeiras. Notando
a "informação fragmentada", o FMI fez um
levantamento de um total global de 1. 100 hedge funds com
capital combinado de US$ 100 bilhões, observando que
"o capital de hedge fund fica pequeno em
comparação com o capital de outros investidores
institucionais (US$ 20 trilhões em mercados
maduros)". George Soros, o mais famoso operador de
hedge fund, chamou o negócio "uma daisy chain com
muitos intermediários, e cada intermediário tem a
obrigação para as suas contrapartes sem saber quem mais
está envolvido". Os riscos se tornaram claros após
o calote da Rússia e o colapso do Long-Term Capital. O
Union Bank of Switzerland, o maior banco da Europa,
declarou uma perda de US$ 684 milhões em sua fatia de
15% no hedge fund, o que se somou às outras perdas de
grandes empresas desde o default da Rússia: Credit
Suisse First Boston (US$ 400 milhões; Salomon Smith
Barney, Nomura Securities, Bankers Trust and Bank America
(aproximadamente US$ 350 milhões cada), e Merril Lynch
(US$ 135 milhões). Outras grandes perdedores foram
Deutsche Bank, Dresdner Bank, JP Morgan, Barclays and
Bank Austria. Boiando nesta corrente de más notícias
estava a descoberta que o Banco Central da Itália havia
investido US$ 250 milhões no Long-Term Capital antes que
o hedge fund acumulasse numa posição de US$ 49 bilhões
em títulos do governo italiano. "Virão coisas
piores", afirmou um analista da Salomon Smith Barney
em Londres. "Nós veremos uma razoável quantidade
estável de anúncios, de avisos, problemas e
retrincheiramentos nos próximos trimestres".
O Brasil, então, se tornou o que os banqueiros chamaram
de "paredão", o "risco na areia"
para defender contra a proliferação do contágio
financeiro. "O Brasil é a chaveta do sistema
financeiro mundial neste momento", afirmou um
estrategista de investimentos. "Não importa o que
aconteça, o Brasil não pode afundar". O embaixador
do Brasil em Londres, disse à BBC: "Esta é a
primeira crise do Brasil que não é nossa culpa".
Isso não é de todo verdade. O governo do presidente
Fernando Henrique Cardoso, com seu prestígio aumentado
por ter estancado a inflação crônica, perdeu duas
grandes oportunidades de cortar a dependência do Brasil
do influxo de fundos estrangeiros de curto prazo ao
fortalecer as finanças públicas do país. A primeira
oportunidade veio quando, após sua arrasadora vitória
eleitoral em outubro de 1994, ele esperou seis meses
antes de enviar propostas de reforma fiscal ao Congresso,
mesmo sabendo que toda a América Latina estava sob
pressão fiscal por causa da crise do México. Cardoso
foi, por um ano, Ministro da Fazenda, baseando sua
candidatura presidencial na estabilização econômica. A
segunda oportunidade veio em novembro de 1997, após um
ataque especulativo ao dólar de Hong Kong ter semeado
pânico nos mercados financeiros em todo o mundo. Para
defender a moeda brasileira, a equipe econômica de
Cardoso decretou grandes aumentos nos impostos e taxas de
juros, e grandes cortes nos gastos públicos. Os impostos
e juros subiram, mas os gastos do governo não caíram.
Os déficits do governo subiram de 6,1% do PIB em 1997
para 7,8% em 1998, projetado para 8,2% em 1999.
O Bank for Internacional Settlements (BIS) avisou:
"Na ausência de qualquer melhoria nos atuais
déficits fiscais do país, o influxo dos fundos
bancários sem precedentes para o Brasil no primeiro
quadrimestre (1998) podem ter aumentado a vulnerabilidade
do país para uma abrupta reversão do sentimento de
mercado", assim como 64% de sua dívida externa
bancária no final de 1997 era de menos de um ano. Apesar
de enormes influxos de capital estrangeiro provenientes
dos leilões de privatização, a saída desesperada de
fundos do Brasil atingiu aproximadamente uns US$ 30
bilhões nas semanas após o calote da Rússia. Sob
crescente pressão, o governo aumentou suas vendas da
dívida pública dolarizada de curto prazo, pagável em
moeda local na corrente taxa de câmbio, com títulos
similares aos tesobonos que precipitaram o crash mexicano
de dezembro de 1994.
"Pelos últimos quatro anos o Brasil viveu uma
fantasia de estabilização monetária sem dor",
observou o professor Celso Martone da Universidade de
São Paulo. "O Plano Real substituiu o financiamento
inflacionário do déficit público pelo financiamento
estrangeiro, alimentado pelo boom dos mercados
emergentes. O pior de tudo é que os políticos e o
governo começaram a acreditar em sua própria fantasia,
com uma expansão fiscal gigantesca. Em 1998, o setor
público gasta um recorde histórico de 40% do PIB,
impactado por altos juros, apesar da receita também
estar numa alta recorde de 32% do PIB. O fácil acesso ao
crédito internacional adiou a crise da establização.
Com a crise asiática, estamos presenciando o fim de
outro ciclo internacional de crédito como o dos anos
70".
A crise asiática e suas repercussões internacionais
também pode constituir-se em outro episódio de mudança
nas relações de poder ainda não solidificado, nem
claramente compreendido. Na década seguinte ao colapso
do bloco político soviético, presenciamos o surgimento
de desordens financeiras e políticas locais, até
recentemente controladas pelas forças da Guerra Fria.
Essa desordem está se multiplicando muito mais rápido
do que um único poder ou burocracia internacional pode
administrar ou conter. A selvageria que nós vimos na
Somália, Ruanda, Sudão, Congo, Argélia, Bosnia,
Albânia, Kosovo, Afeganistão, Ucrânia, Azerbaijão,
Armênia, Geórgia, Turkmenistão, Uzbekistão,
Tajikistão, Chechênia e Dagestão, não é facilmente
influenciada por operações militares transoceânicas ou
intervenções financeiras. Companhias de petróleo
ocidentais estão tentando formar grupos para construir
oleodutos nas áreas perigosas da extremidade meridional
da antiga União Soviética, ao longo das antigas rotas
de comércio, anteriormente conhecida como a Rota da Seda
que foi segura antes do banditismo endêmico dos
exércitos chineses, há 2.100 anos atrás. Na próxima
década, as intervenções para conter conflitos locais e
desordens serão muito mais seletivas que num passado
recente e mais alinhadas com os interesses específicos
dos principais poderes. As dificuldades da Ásia Oriental
ocasionaram pequenas crises secundárias na Malásia e em
Hong Kong, com efeito potencialmente maior na Indonésia,
Rússia e China. A questão é se a Indonésia pode
permanecer um estado unificado, se a China pode acomodar
pacificamente os mecanismos de mercado ou se a Rússia
pode superar sua ambivalência histórica e ocidentalizar
autarquias e culturas autocráticas. As contenções
entre economia de comando e de mercado ainda não foram
decididas.
O recente ressurgimento de pirataria no mares do sul da
China e os ecos da pirataria endêmica do Estreito de
Málaca lembram Melville. Se a Indonésia, dividida entre
várias entidades políticas insulares, se mostra
impotente para controlar esta violência, então um arco
de pequenos estados, alguns deles envolvendo sátrapas de
gângsters, estará formando ao longo do tempo uma
fileira meridional da massa territorial da Eurásia,
provocando um conflito internacional. O vigor da
reprodução destes povos periféricos contrasta
dramaticamente com a estagnação demográfica da
Rússia, Europa Ocidental e Japão.
O tipo de mudanças estratégicas nas relações de poder
e comércio que vemos hoje são características
permanentes da economia global. Quase três séculos
atrás Daniel Defoe observou no The Complete English
Tradesman (1726):
"Como é frequente ouvir um comerciante dizer, 'O
comércio está bastante alterado desde que eu o
conheço; seus métodos mudaram; as manufaturas estão
mudadas, os próprios locais onde são realizados estão
mudados, os manufatureiros se mudam de cidade em cidade,
e os locais não os vêem mais; os mercados se transferem
para onde são vendidos, e até mesmo suas demandas,
tanto para fora como internamente; as próprias nações,
para as quais produtos específicos eram exportados
antigamente, não os recebem mais agora; e as nações
que antes não consumiam estes produtos, são agora o seu
principal mercado! ...' As muitas mudanças que o
comércio sofreu, podem ser atribuídas às diversas
reviravoltas ocorridas com os manufatureiros pelas
invenções dos homens; as violentas remoções dos
manufatureiros, e de seus mercados, de uma cidade a
outra, e de uma nação a outra, através de guerras; a
convulsão das nações, a queda de velhos impérios e
Estados, e a ascensão de novos sobre suas ruínas".
Hoje o que podemos chamar de mudanças normais e
turbulência na economia mundial são agravadas pela
proliferação de ativos financeiros. O Brasil, a Rússia
e muitas outras economias nacionais tornaram-se
dependentes de influxos de capital de curto prazo. Quando
o índice industrial Dow Jones atingiu 9.338 em 17 de
julho de 1998, metade dos lares norte-americanos eram
proprietários de títulos, tanto individualmente como em
fundos mútuos, contra apenas um quarto durante o crash
de Wall Street de 1987. Em 1998, os investidores jogaram
bilhões de dólares em ações da Internet que ainda
estão para mostrar qualquer lucro. Yahoo Inc., com seu
software de busca, foi avaliado pelo mercado financeiro a
US$ 9 bilhões, ou 300 vezes seus ganhos. Em An Essay on
Projects (1697), Defoe escreveu "belas pretensões
de descobertas importantes, novas invenções, máquinas
que elevaram a imaginação de pessoas crédulas a tal
altura que, meramente à sombra da expectativas, formaram
companhias, escolheram comitês, geraram funcionários,
ações e livros, levantaram grandes estoques, e
estimularam uma noção vazia àquele nível o qual as
pessoas foram traídas ao dividir seu dinheiro por cotas
de um novo nada; e quando os inventores prolongarem sua
gozação até terem vendido suas participações, deixam
a nuvem evaporar por si mesma..."
Os derivativos, moedas sobrevalorizadas, bens
imobiliários e ações e a multiplicação de crédito
de curto prazo são excessos conhecidos. Mas a agitação
financeira que se seguiu ao colapso do rublo russo em
agosto de 1998 tem mais relação com o fracasso
institucional. A tensão entre mercado e economias de
comando são o teste principal de adaptação humana.
Para mercados robustos prevalecerem em contenção com
economias de comando, é necessário lidar com excessos
de forma mais efetiva do que na crise asiática. Em
outras palavras, com o dinheiro excedente perseguindo
poucas oportunidades empresariais viáveis, deve ser
escalado o valor de ativos financeiros até o real valor
de oportunidades. Isto significa encolher balancetes e
reduzir dívidas para dimensões realistas, oferecendo
às economias frágeis uma alternativa viável à
inflação, controles de câmbio e protecionismo.
No seu livro, The Crash and its Aftermath, Barrie A.
Wigmore, sócio da Goldman Sachs, detalhou uma das
principais lições da Grande Depressão: "Os
credores estavam pouco dispostos a ajustar as dívidas
às quedas severas no nível dos preços e não podemos
dizer que as taxas de juros declinaram de forma alguma.
Os credores tiveram que suportar as dívidas em
condições muito mais duras em termos reais que as
anteriormente negociadas. Na realidade, bens imóveis,
fazendas e commodities são o fardo carregado pelos
devedores falidos. Assim, o sistema financeiro aderiu a
práticas estabelecidas com níveis de preço mudados, e
a economia foi obrigada a adaptar-se". Na crise de
dívida de América Latina nos anos 80, o reajustamento
de obrigações só aconteceu depois de uma década de
recriminações e demora como também do relaxamento da
política monetária nos Estados Unidos e Japão. Depois
disso, os US$156 bilhões no programa de Brady Bonds
tornaram um dos produtos mais quentes de trocas, com um
volume de negócios em 1996 de US$2,7 trilhões, 17 vezes
superior ao valor nominal dos bônus. Com esta
experiência absorvida, os bancos de investimento e os
traders hiperativos podem aumentar e encontrar
oportunidades lucrativas, criando cenários mais
confortáveis que o programado atualmente no video game
Dinheiro, Cobiça e Tecnologia.
Os recentes problemas econômicos na Rússia, Brasil,
Japão, Indonésia, Venezuela, Coréia, China, Malásia e
Hong Kong dramatizam dificuldades insuspeitas embutidas
em programas de reforma inspirados por economistas e
políticos fora dos países onde a reforma supostamente
deve ocorrer. Expectativas irrealistas foram despertadas
por gigantescos pacotes de salvamento negociados pelo
FMI. Não sabemos se o poder tecnológico e empresarial
da globalização irá avançar ou retroceder em conflito
com as obstruções instituicionais locais e políticas.
As reformas orientadas para o mercado foram bem sucedidas
em intensificar a atividade econômica e aumentar os
padrões de vida dos países latino-americanos arrasados
pela inflação crônica, e na reorganização política
e econômica dos países da Europa Oriental após o
colapso do bloco soviético, mas recuaram quando
interesses entrincheirados em outros países se viam
diante de desafios menos desesperadores. Após a
renúncia do presidente Suharto, a Indonésia enfrenta um
encolhimento econômico em 1998 de 13%-20%, com
protestos, violência, falta de alimentos, desemprego em
massa, fracassos bancários e não pagamento de sua
dívida externa. No leste da Ásia, cozinhas de sopa e
filas para pegar arroz estão aparecendo. Boulevards e
parques estão sendo ocupados por sem-teto, à medida que
as pessoas são expulsas de seus lares pelo não
pagamento de aluguel. A produção está caindo para
6%-7% na Coréia e Tailândia, 4% em Hong Kong e 2% na
Malásia, de acordo com projeções de seus respectivos
governos, com estimativas privadas de perdas chegando a
ser ainda mais altas.
A nova crise nos mostra que para melhor administrar a
multiplicação e diversificação de ativos, devem ser
efetuadas mudanças no sistema financeiro internacional.
Não há nenhuma fórmula mágica ou permanente para
fazê-lo. Apenas instrumentos rudimentares podem conter a
loucura coletiva nos mercados financeiros internacionais.
Cada proposta específica para regular e restringir
excessos de volatilidade e promiscuidade em mercados
financeiros, gerará custos, controvérsia e efeitos
limitados. No entanto, medidas conjuntas poderiam reduzir
o desperdício e o perigo criados pela proliferação
desenfreada dos ativos financeiros. Medidas úteis, que
poderiam ser tomadas com o acordo entre os bancos
centrais membros do BIS, poderiam incluir iniciativas
como estas:
1. Limitar os empréstimos de curto prazo a uma certa
porcentagem, fixada pelo BIS, de ativos estrangeiros dos
países credores e compromissos financeiros dos países
devedores, possibilitando sempre a provisão normal de
créditos comerciais.
2. Influenciar o limite internacional de comércio de
recursos financeiros.
3. Eliminar os paraísos fiscais por acordo
internacional, com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha
tomando a liderança na recusa em cumprir contratos
registrados nestas jurisdições.
4. Restringir vendas e comércio de derivativos para
futuras trocas públicas, onde contratos são
registrados, dados de grandes posições são guardados e
preços publicados sob normas de adequação de capital.
Os bancos e outras instituições financeiras deveriam
ser obrigadas a alocar capital para apoiar as apostas de
derivativos, com as côrtes lhes designando o mesmo
status legal das dívidas de jogo.
5. Os bancos não devem ser autorizados por seus
fiscalizadores a avaliarem seu própio "perfil de
risco" utilizando softwares de gerenciamento de
risco, que geram perigos ao crédito, emprego e
produção da economia real, por não contar com os
riscos políticos e os eventos aleatórios.
Finalmente, se Papai Noel está morto, presumindo que ele
tenha vivido, os países têm que resolver os seus
próprios problemas. O desafio que o Brasil e os países
asiáticos tem à frente, é a modernização das
instituições para buscar um uso mais eficiente de
capital e reduzir a dependência de dinheiro a curto
prazo, oriundos da proliferação mundial de ativos
financeiros sujeitos a interrupções severas e súbitas.
A crise asiática mostrou tanto a força quanto as
limitações do sistema internacional. Em nenhum momento
anterior, países devedores receberam apoio tão rápido
de governos estrangeiros e instituições internacionais.
Como resultado da crise da Ásia, o Brasil, a Tailândia,
a Coréia e a Indonésia estão se orientando para uma
integração mais profunda com a economia mundial. Isso
requer a queda das taxas de juros domésticas, que com o
passar do tempo refletirá na diminuição dos custos
políticos e institucionais. Esta história não terminou
e seguramente dificuldades ainda virão. Os problemas
institucionais básicos destes países não admitem
soluções a curto prazo, mas foi feito um começo. O que
decidirá seu futuro será sua capacidade para
responderem aos choques e adaptarem-se às mudanças nas
condições de vida econômica.
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