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Carnaval
em Caracas
Norman
Gall
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Publicado por "Argumento", n° 4, 1973 No
início de sua carreira de jornalista, o romancista colombiano Gabriel
Garcia Márquez, autor de Cem anos de Solidão, formou de Caracas a
imagem de “uma cidade apocalíptica, irreal, desumana” . Como repórter
da revista venezuelana Momento, descreveu as revoltas de cunho
militar e popular que Levaram à deposição, em janeiro de 1958, do último
ditador da Venezuela, o general Marcos Pérez Jimenez. Viu as lutas de rua
à sombra do enorme edifício do governo na Plaza del Silencio, a
multidão cercando a sede da polícia secreta do ditador, a Seguridad
Nacional e, alguns meses depois, os distúrbios com que foi saudado o
então vice-presidente Nixon, quando seu cortejo esgueirou-se em meio à
massa hostil aglomerada defronte às pobres lojas de móveis e aparelhos
domésticos da Avenida Sucre, no bairro operário de Catia. Aquela parecia
ser uma. época de esperança: os camponeses vinham às cidades e aí
erguiam suas casas, e os políticos democráticos saíam da cadeia ou
voltavam do exílio para formar novos governos; a Venezuela, diria Garcia
Márquez depois, era “o país mais livre do mundo”. Durante
quase quatrocentos anos Caracas foi uma cidade de telhados vermelhos
pitorescamente espremida num vale estreito. Só nas últimas décadas é
que a prosperidade trazida pelo petróleo venezuelano cobriu o vale de
luxuosos edifícios de apartamentos e escritórios, ligados por sinuosas
avenidas que coleiam entre pontos de destaque como a Sears (a Venezuela é
a filial estrangeira mais lucrativa dessa empresa), a sede da Shell da
Venezuela e da Creole (Exxon) Petroleum, o velho Nuevo Circo, isto
é, a arena de touradas que hoje em dia é usada para manifestações políticas,
e os dois ginásios de esportes construídos por Pérez Jimenez, o qual
recentemente retornou à política. O
dinheiro dó petróleo atraiu um grande número de pessoas a
Caracas; o êxodo rural experimentado pela Venezuela foi um dos mais
intensos do século XX. As encostas que descem para o Vale de Caracas e os
morros que o rodeiam estão cobertos de casebres (ranchos) de
favelados, forçando as portas das ruas asfaltadas, das obras públicas e
dos orçamentos governamentais. Dominando o panorama da parte oeste de
Caracas estão os altos conjuntos habitacionais construídos pelo ditador,
os chamados superbloques — 51 torres de cor pastel defrontando-se
com os ranchos, como se fossem desbotadas edificações de um
templo monumental, elevando-se sobre as ruínas de uma cidade bombardeada.
Em The Politics of the Barrios of Venezuela (A Política das Favelas da
Venezuela), um dos melhores dos muitos estudos recentes sobre os
posseiros urbanos da América Latina, Talton F. Ray enfatiza “a estreita
ligação entre mudança política e urbanização”. Na América Latina,
há uma geração passada, isso queria dizer invasão de terras por
posseiros por ocasião de revoluções e eleições. Com o conhecimento íntimo
das favelas que adquiriu trabalhando durante três anos para a organização
voluntária Acción, Ray escreve que a deposição de Pérez
Jimenez em 1958... “....
inaugurou uma fase nova e sem precedentes de desenvolvimento (da atividade
de posseiros). Suspenderam-se imediatamente as proibições que pesavam
sobre a ocupação de terras e muitas famílias abandonaram os ranchos onde
se amontoavam para se apoderar o mais rápido possível de terras
devolutas nos arrabaldes da cidade. Quando as famílias camponesas ainda
no interior souberam das novas oportunidades, o fluxo de migração
intensificou-se tremendamente(...) A tendência foi tão forte que se pode
atribuir a origem de mais barrios hoje existentes, àqueles
primeiros vinte e quatro meses seguintes à Revolução do que a qualquer
outro período.” À derrubada de Pérez Jimenez em 1958 seguiram-se também
anos de confusão política. Durante esse tempo a Venezuela passou por uma
série de revoltas de quartel e a eclosão de um movimento de guerrilhas
mais duradouro e cruento do que a insurreição cubana de Fidel Castro
alguns anos antes. Foram levantes da direita e da esquerda, contra o
governo reformista do presidente Rómulo Betancourt (1959-1964), o qual
era acusado pelos conservadores e pelos revolucionários de se haver
vendido ao imperialismo americano, principalmente às empresas
estrangeiras de petróleo que funcionam na Venezuela. Apesar
dessa intensa oposição, Betancourt e seu partido, a Acción Democrática
(AD), constituíram o primeiro governo eleito por voto popular a
terminar seu mandato constitucional nos 150 anos da história republicana
da Venezuela. Foi esse, a propósito, o único êxito das políticas de
reforma, luta anti-insurrecional e encorajamento do investimento privado
na América Latina pela administração Kennedy. Contudo, a democracia
sobreviveu na Venezuela porque a maioria desejava algo melhor que a
ditadura e tinha medo do caos político. A AD contava com forte apoio
popular (hoje diminuído) e Betancourt lutou tenazmente pela sobrevivência,
mesmo depois de sua mão ter ficado defeituosa devido à explosão de uma
bomba quando de uma tentativa de assassinato organizada pelo ditador
dominicano Rafael Trujillo. Na
década de 60, a AD sofreu três cisões de vulto que custaram ao partido
a perda da maioria do eleitorado. Mesmo assim, agora que o Partido
Social-Cristão (COPEI) do presidente Rafael Caldera está no poder, é
difícil saber em que sua política social e suas ligações com as
grandes empresas distinguem-se da AD. As possibilidades de sobrevivência
da democracia na Venezuela serão testadas em dezembro deste ano, nas eleições
para a Presidência e o Congresso. O
sistema político democrático funcionou na Venezuela? Daniel H. Levine
enfatiza as notáveis conquistas do período pós- 1958 em seu estudo Conflict
and Political Change in Venezuela (Conflito e Mudança Política na
Venezuela): “Com
apenas três anos de governo civil na primeira metade deste século (a
Venezuela) construiu, desde 1958, uma das poucas ordens políticas democráticas
competitivas operantes da América Latina. Assolada por conflitos, violência
civil e guerrilha sistemática desde o início da década de 60, conduziu
mesmo assim três transferências pacíficas de poder recentemente (1958,
1963 e 1968). Foram as primeiras transferências consecutivas de poder
produzidas por escrutínio popular da história moderna do país, e as
eleições de 1968 (que o COPEI venceu por pequena margem) marcaram a
primeira ocasião em que o poder foi passado a um partido de oposição”. O
livro de Levine descreve bem as amargas lutas das décadas de 40 e de 60
em torno da questão da educação católica vs. secular, e mostra
como o movimento estudantil revolucionário da Universidade Central de
Caracas desintegrou-se enquanto tentava promover insurreições
guerrilheiras na década de 60. Levine argumenta que os venezuelanos eram
tão divididos entre si, e seus partidos políticos tão fracos, que “se
faziam necessários apelos extremos para atingir e ativar os que
normalmente não faziam parte de organizações”. Isso ajuda a explicar
por que a batalha entre sectários católicos e anticlericais sobre o
controle estatal da educação escapou ao controle e levou à derrocada do
primeiro governo da AD (1945-1948), por força do golpe militar que
instaurou a ditadura de Pérez Jimenez. Contudo, depois da queda do
ditador em 1958, os dois partidos principais, a AD e o COPEI, conseguiram
acertar a questão entre a Igreja e o Estado sossegadamente, através de
negociações particulares. Levine acredita que o crescimento da AD e do
COPEI tem implicado numa tendência ao esfriamento da política
venezuelana, através do isolamento dos extremistas e da criação de
meios através dos quais o povo pode tomar parte na vida política. É
possível, entretanto, que ele exagere e subestime as fraquezas
subjacentes à sociedade venezuelana. Não leva em consideração o
sentimento de desilusão hoje espalhado pela Venezuela com relação à
atuação recente dos partidos democráticos e ao esbanjamento em escala
monumental dos ganhos do Estado com o petróleo. A indicação mais clara
dessa desilusão é o extraordinário retorno político do próprio Pérez
Jimenez. Libertado em agosto de 1968, depois de cinco anos de prisão por
apropriação de dinheiros públicos, o gordo e calvo ex-ditador, de
Madri, candidatou-se a uma vaga no Senado quatro meses depois, sem fazer
campanha eleitoral e sem gastar dinheiro. Para surpresa geral, venceu em
quinze das dezesseis zonas eleitorais de Caracas, sendo sua votação mais
maciça nos mesmos distritos de onde o povo havia saído às ruas dez anos
antes para apeá-lo do poder. Apesar
de seus muitos fracassos, Pérez Jimenez afinal de contas presidiu ao
estonteante boom econômico que se iniciou perto do fim da longa
ditadura de Juan Vicente Gomes (1908-1935), e que se expandiu fortemente
depois que o próprio Pérez Jimenez tomou o poder mediante um golpe
militar. De acordo com o falecido sociólogo chileno Jorge Ahumada, “O
produto interno bruto aumentou em 8% ao ano entre 1936 e 1958. (...) Nunca
houve experiência semelhante na história do mundo ocidental”. Ademais,
no governo de Pérez Jimenez a produção de petróleo dobrou entre 1950 e
1958, enquanto que o consumo pessoal subiu ainda mais. Entre 1948 e 1957 a
indústria de petróleo pagou sete milhões de dólares em impostos ao
governo, quantia essa “maior que todo o total anterior da renda pública
auferida desde a colonização do país pela Espanha”. De todas as
partes do mundo choveu dinheiro para investimentos especulativos na
Venezuela, principalmente para abundantes obras públicas e construções
civis. Mas essa inundação de petróleo e dinheiro especulativo também
intensificou o já grande contraste entre a prosperidade das cidades e a
decadência do campo. A proporção de população nas cidades cresceu de
35% em 1936 para 78% no censo de 1971, enquanto que a população como um
todo triplicou no mesmo período. Ao
contrário de Perón na Argentina, Pérez Jimenez pouco fez para conseguir
uma distribuição de renda mais justa. Em sua Carta Pastoral de 1º de
maio de 1957, que ajudou a preparar as condições para a derrubada do
ditador, o arcebispo de Caracas acusava: “Nosso país está ficando rico
com impressionante rapidez... Contudo, ninguém pode dizer que essa
riqueza esteja sendo distribuída de forma a beneficiar todos os
venezuelanos, uma vez que a grande massa do povo vive em condições
sub-humanas”. Muitos
venezuelanos hoje parecem saudosos daquilo que recordam como a fácil
prosperidade e a calma relativa da ditadura de Pérez Jimenez, em comparação
com a confusão política e social dos últimos anos. Tendem a esquecer-se
do desperdício, da corrupção e da brutalidade policial de seu governo:
“Por certo ele roubou. Mas fez”. A eleição de Jimenez para o Senado
foi anulada com base numa filigrana jurídica e a constituição do país
acabou de ser emendada às pressas para impedi-lo de concorrer às eleições
presidenciais de 1973. Enquanto que cinco dos catorze candidatos à Presidência
nas próximas eleições afirmam representar as posições do ex-ditador,
o próprio Pérez Jimenez deixa em suspenso as suas preferências.
“Muitos pré-candidatos vieram conversar comigo”, disse ele há alguns
meses, “mas não posso dizer aos venezuelanos ‘votem neste ou
naquele’, porque isso seria um insulto ao nosso povo”. A
sobrevivência da democracia venezuelana ainda permanece em dúvida devido
à diminuição do apoio popular gozado pelos principais partidos. Ambos
agora disputam entre si o apoio das grandes firmas familiares e
conglomerados econômicos, que têm exercido pressão política por trás
dos bastidores, visando acumular enormes fortunas que, direta ou
indiretamente, se baseiam no petróleo. Por conseguinte, os dois
candidatos mais fortes à Presidência este ano são pessoas de posições
conservadoras: o homem da AD é Carlos André Pérez que, como ministro do
Interior de Betancourt, foi o responsável pelo esmagamento das guerrilhas
no início da década de 60, enquanto que o candidato do COPEI é Lorenzo
Fernandes, que também foi ministro do Interior, mas do presidente Caldera.
Trata-se de uni católico convencional, advogado, pai de onze filhos, que
propugnou um programa “pacificatório” de anistia para os
guerrilheiros derrotados, o que ajudou a acalmar o país depois da turbulência
dos anos 60. Nenhum
dos dois candidatos tem boa imagem popular e ambos dependem ao extremo de
suas organizações partidárias e de elevados orçamentos de televisão e
outras formas de propaganda para conseguir votos. Viajam por todo o país
fazendo as promessas costumeiras de habitação para os favelados e empréstimos,
por ocasião da safra, para os camponeses, sem dar qualquer sinal de que a
Venezuela se defronta com enormes dificuldades; que, por exemplo,
calcula-se que dentro dos próximos dez anos a população aumente em 50%,
enquanto que a produção de petróleo — atualmente a fonte de 9/10 dos
ganhos da Venezuela com comércio exterior e 2/3 da renda governamental
— poderá diminuir em mais de 1/3. Infelizmente,
a maior parte do que se tem escrito em nível acadêmico sobre a Venezuela
tem sido muito acrítico com relação a Betancourt e à Acción Democrática,
de forma que no exterior pouco se sabe dos problemas atuais do país.
Ainda está por fazer um estudo sobre as razões mais profundas que
levaram a Venezuela a esbanjar o que ganhou com o petróleo nos dois últimos
decênios, bem como por que a política democrática não trouxe a
diversificação da economia, de modo que pudesse tornar-se mais
independente do petróleo. Em um dos muitos livros recentemente publicados
e que tecem loas à AD, por exemplo, John Duncan Powell afirma que o
partido manteve seu poder através de “um programa organizado de benefícios
concedidos aos eleitores das zonas rurais”. Mas Powell limita seu estudo
em grande parte aos apparatchik da Federação Camponesa
Venezuelana, que é uma organização controlada pela AD, deixando de lado
o fato de que os “benefícios concedidos aos eleitores das zonas
rurais” foram na verdade modestos. De acordo com um relatório do
governo, 2/5 das 162 mil glebas intencionalmente distribuídas entre os
“beneficiários” da reforma agrária venezuelana foram abandonadas.
Considerando as 95 mil glebas ainda ocupadas, vemos que 80% dos camponeses
não receberam títulos de propriedade ou então ocupam ilegalmente como
posseiros terras doadas a outras pessoas. “Isso representa um processo
regressivo”, diz o relatório, “ ..... uma vez que em muitos casos
isso significa que uma única pessoa pôde apoderar-se de muitas glebas
anteriormente destinadas a vários camponeses, que por sua vez se mudaram
para os cinturões de miséria que circundam as cidades, ou retornaram à
sua vida anterior de conuaueros (agricultores nômades praticantes
de coivaras) nas montanhas. O que é ainda pior é que muitos deles
ficaram nas glebas trabalhando como peões para as empresas agrícolas
particulares, que se organizaram nas terras que os peões haviam recebido
conforme a reforma agrária e que, legalmente, ainda lhes pertencem”. A
maior parte dos 2 bilhões de dólares gastos com a reforma agrária
venezuelana se destinou à expropriação de latifúndios a preços
aumentados em benefício dos proprietários anteriores, o que leva outro
especialista a concluir que os latifundiários lucraram mais que os
camponeses. Numa série de artigos publicados no jornal EL Nacional, de
Caracas, sob o título “A Colheita do Fracasso”, o principal
jornalista-pesquisador do país, Germán Carías, revelou que “foram
gastos 125 milhões de dólares para a construção de uma grande represa
e canais de irrigação, descritas pela propaganda do governo como o
‘maior sistema de irrigação da América Latina...’. Atualmente a
maior parte dos canais está entupido, os camponeses estão perdendo suas
colheitas e, paradoxalmente, o gado está morrendo no verão por falta
d’água. Dezenas de funcionários do governo cuidam da represa, mas hoje
em dia ela só é usada por esportistas que, aos domingos, chegam lá
vindos de Caracas ou de Valencia e a usam para praticar esqui aquático”. Essas
histórias escabrosas criaram um vácuo político do qual dois novos
movimentos políticos emergiram. Um é a ressurreição política de Pérez
Jimenez. O outro surgiu dos remanescentes da fracassada insurreição
guerrilheira da década de 60 e da cisão do PCV (Partido Comunista
Venezuelano) em dezembro de 1970. Os jovens líderes do PCV, que ajudaram
a organizar o levante popular de 1958 que levou à queda de Pérez Jimenez
e em seguida iniciaram o movimento guerrilheiro, são aquilo que a América
Latina produziu de mais aproximado a um grupo coerente de revolucionários
profissionais no sentido clássico. Depois dos últimos anos da década de
60, quando o movimento guerrilheiro foi derrotado, esse grupo rebelou-se
contra as lideranças comunistas mais velhas e, após uma acirrada luta
intrapartidária, formou um partido marxista-leninista próprio, o MAS (Movimento
al Socialismo). Um dos documentos importantes do debate interno do
partido a respeito de renovação vs. ortodoxia, que no fim causou
a cisão do PCV, foi um livro de poucas páginas sobre a invasão da
Tchecoslováquia, escrito por um ex-líder guerrilheiro
chamado Teodoro Petkoff, a quem
o Pravda denunciou um pouco antes da cisão do PCV, e depois
Leonid Brezhnev, em seu discurso ao 34º Congresso do Partido Comunista da
União Soviética, acusou de “tendências nacionalistas (de) caráter
anti-soviético”. Em
seu Isocialismo para Venezuela? (1970), que publicou poucos meses
antes de sair do PCV para formar o MAS, Petkoff rompeu com a linha
tradicional de guerra-fria do PCV, argumentando que “a luta
anti-imperialista na Venezuela não consistia em declarar guerra aos
Estados Unidos mas numa confrontação bem real com nosso próprio
capitalismo dependente e sua força política”. O lançamento do MAS
constituiu um acontecimento dramático e espera-se que o novo partido faça
boa figura nas eleições de dezembro. Em sua fase de maior sucesso no início
da década de 60, os guerrilheiros venezuelanos recorreram a façanhas
sensacionais como o rapto de um astro do futebol espanhol, o seqüestro do
navio Anzoatequi e o roubo, com a subseqüente devolução voluntária,
de todo o acervo de uma exposição de quadros de pintores impressionistas
franceses. O MAS tem recorrido ultimamente a táticas semelhantes para
assustar e ridicularizar a plutocracia venezuelana. Os
ataques do MAS aos ricos — alardeados por posters chamativos e
acompanhados pela distribuição de milhares de notas falsas, onde aparece
o retrato de magnatas e a legenda “este dinheiro é falso; o de verdade
é ele quem tem” — atraem hoje muito mais apoio do que se poderia
prever há alguns anos. Quando Garcia Márquez voltou a Caracas no ano
passado para receber o Prêmio Rómulo Gallegos por seu romance Cem
Anos de Solidão, doou os 23 mil dólares do prêmio ao MAS. Trata-se,
disse ele: “...de
um partido jovem, que tem imaginação e grande clareza doutrinária, com
uma política própria baseada na realidade nacional, com um estupendo espírito
de sacrifício pessoal e uma determinação revolucionária que não pode
falhar. Ao mesmo tempo, e isto é novo e formidável, os ativistas desse
partido sabem que a seriedade revolucionária não é incompatível com as
danças modernas, com filmes de cowboy e com o senso de humor. Eles
não têm vergonha de amar. Eu me identifico com seus propósitos. Sou
amigo pessoal de muitos de seus líderes e estou convencido de que farão
a revolução na Venezuela”. Petkoff
é um organizador político e orador franco e esforçado. Foi um dos líderes
da insurreição de 1958 contra Pérez Jimenez e escapou da prisão de
modo dramático, por duas vezes, quando participava do movimento
guerrilheiro na década de 60. Nos últimos anos tem passado grande parte
do tempo viajando de cidade em cidade em companhia de outros líderes do
MAS, como Pompeyo e German Lairet, estimulando a oposição aos dois
principais partidos. Mas sua influência se deve igualmente a seus dois
livros Checoslovaquia: El Socialismo como Problema (1969), e Isocialismo
para Venezuela? que não só contribuíram para a cisão do PCV como
também trataram de definir a condição do revolucionário profissional
na América Latina depois que as guerrilhas falharam. Embora
boa parte dos escritos de Petkoff se veja prejudicada por clichês que
refletem o isolamento de um homem que passou quase toda sua vida de adulto
escondido ou preso por atividades subversivas, ainda assim ele foi capaz
de redefinir alguns problemas de um movimento revolucionário dentro
daquilo que chama de “subdesenvolvimento de luxo” da sociedade
venezuelana. Observa, e com razão, que “o violento processo de urbanização”
é “peculiar ao capitalismo em geral”. Todos os Estados socialistas
fortalecidos, de partido único, proíbem as migrações descontroladas do
campo para a cidade, evitando assim os problemas políticos e econômicos
gerados por sub-habitação como os ranchos venezuelanos... De
fato, a maior falha dos escritos teóricos do marxismo-leninismo sobre a
sociedade latino-americana é deixar de lado os favelados, que formam um
terço da população da maior parte das cidades latino-americanas... e
cujo potencial, em termos de insurreição, ficou bem claro quando da
revolução de 1965 na República Dominicana. A teoria marxista
tradicional tem ignorado esse fenômeno porque não havia equivalente na
Europa do século XIX; lá o êxodo rural se deu a um ritmo mais lento e
havia mais empregos na indústria para absorver os migrantes. Como
os favelados podem ser mobilizados? Ao tratar desse problema, Petkoff e
seus companheiros do MAS procuram uma conciliação da velha contradição
entre populismo e antipopulismo que dividiu
Bakunin e Marx. É com amargura que Petkoff rememora os esforços do PCV,
em janeiro de 1958, para organizar um levante popular contra a
ditadura de Pérez Jimenez, “... quando nossa agitação em alguns dos
centros operários mais importantes da capital...
foi recebida com irritante indiferença. A greve geral de 21 de
janeiro deu resultado, afinal, mas muitos entre nós tendam pelo
resultado, caso os empregadores não fechassem suas fábricas, lojas e
bancos, contribuindo desse modo com os trabalhadores em greve”. Em
contraste com o “conservadorismo” e passividade da classe trabalhadora
venezuelana, diz ele: “. . as massas marginais são um barril de pólvora,
uma carga de dinamite social apenas à espera de um detonador —e liderança”.
A classe trabalhadora e o sub-proletariado marginal “...moram nos mesmos
barrios, vêm igualmente do campo e compartilham a mesma consciência
de pobreza, de serem deserdados. . . Há uma necessidade urgente de
liderança, de organização e de orientação, uma vez que o barril de pólvora
das massas marginais pode explodir em direção completamente oposta aos
interesses da revolução. A própria instabilidade dessa massa faz com
que seja sensível à ação de qualquer demagogo, ou àquela versão
muito especial de demagogia latino-americana: a dos ditadores militares
— e ex-ditadores (isto é, Pérez Jimenez). Se não ocorrer uma mudança
revolucionária, o futuro trará um colapso econômico e uma deterioração
catastrófica das condições de vida das massas populares”. Infelizmente,
existe uma grande diferença entre explosão social e revolução social
e, por enquanto, o problema da organização dos pobres flutuantes
continua sem solução. Mas Petkoff tem razão ao dizer que a explosão
populacional e o êxodo rural criaram problemas sociais insolúveis, ao
mesmo tempo em que a produção de petróleo principiou a decair. Os políticos
venezuelanos estão começando a se preocupar com o tempo em que o petróleo
não dará mais o dinheiro suficiente para comprar a estabilidade política.
Durante quase quarenta anos eles têm falado em “semear o petróleo”
para diversificar a economia de modo que não dependa mais em tão grande
medida da indústria petrolífera. Os vários governos venezuelanos dos últimos
vinte anos gastaram mais ou menos 20 bilhões de dólares, principalmente
em investimentos como estradas, educação, usinas hidrelétricas,
siderurgia, petroquímica e o desenvolvimento da agricultura. Mesmo assim
esses investimentos têm sido tão ineficientes que o país tornou-se mais
dependente ainda do petróleo. Em
seu apaixonado tratado Petroleo y Dependencia, o Dr. Juan Pablo Pérez
Alfonso, que foi o principal criador da OPEC (Organização de Países
Exportadores de Petróleo) e por duas vezes ministro de Minas da
Venezuela, denuncia o esbanjamento dos lucros que o país consumiu com o
petróleo, que continuou tanto na ditadura de Pérez Jimenez nos anos 50,
como nos regimes democráticos das décadas de 60 e 70. “O
contínuo aumento do lucro fácil com petróleo criou uma sociedade
limitada de intenso consumo, composta dos privilegiados que se aproveitam
dessa transitória riqueza do petróleo, que foi artificialmente
sobreposta às massas marginais da população venezuelana.” Em
suma, é nessa situação que a Venezuela se defronta com as críticas
eleições de dezembro de 1973. Os dois grandes partidos, a AD e o COPEI,
estão tentando deter o declínio de sua popularidade, ao mesmo tempo em
que se vêm ameaçados pelo ressurgimento de Pérez Jimenez e pela ascensão
do MAS. Simultaneamente, como as atuais concessões às companhias
estrangeiras de petróleo têm seu prazo de encerramento marcado para
aproximadamente mais dez anos, o novo governo a ser escolhido nas eleições
de dezembro estará cada vez mais preso à geopolítica do petróleo. Poder-se-ia
pensar que a política petrolífera fosse um ponto importante na atual
campanha eleitoral. Se bem que a produção de petróleo cru será diminuída,
é possível que a elevação dos preços no mercado mundial mantenha o nível
de renda per capita derivada do petróleo durante os próximos dez
anos, mesmo quando se leva em consideração o aumento populacional. Mas a
Venezuela, um dos países organizadores do cartel da OPEC, que tem elevado
o preço do petróleo, irá defrontar-se com alternativas angustiantes
depois da eleição. Os déficits de seu orçamento já são bastante
grandes. Se o próximo governo, da mesma forma que o último, continuar
gastando cada vez mais para permanecer no poder, terá que aumentar as
reservas de petróleo em regiões ainda subdesenvolvidas do país e isso
irá custar muito dinheiro. A
queda de Allende no Chile provocou um forte impacto na política partidária
da Venezuela, onde se tenta preservar uma das poucas democracias
constitucionais restantes da América Latina. Tem havido boatos recentes
sobre conspirações militares visando a tomada do poder. No início de
outubro o presidente Caldera fez uma advertência dirigida “àqueles que
tentam incitar, instigar ou provocar uma rejeição dos resultados da eleição”.
Mas a campanha tem se arrastado por tanto tempo — quase dois anos — e
em seu decorrer foram ventilados tão poucos assuntos sérios, que os políticos
estão tendo dificuldade em manter o interesse pelas eleições. Por
trás, dos bastidores estão ocorrendo conflitos entre os que querem uma
nacionalização mais rápida do petróleo; os que querem negociar com as
companhias petrolíferas para financiar a exploração de mais reservas; e
aqueles que querem ignorar o problema das reservas e continuar a velha política
de limitação da produção e aumento de preços. Em face da experiência
desastrosa de alguns outros países latino-americanos, agora Petkoff e o
MAS duvidam que a nacionalização seja de fato uma medida revolucionária.
Temem que a diminuição das rendas advindas do petróleo venha a
enfraquecer qualquer regime revolucionário. Mas os principais partidos
concordaram em não debater o petróleo nesta eleição, uma falha que
reflete o vazio de toda a campanha. A sobrevivência dessa pródiga
democracia não pode ser considerada como um fato natural, enquanto o
carnaval continua, e seus líderes não conseguem apoio popular
convincente.
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